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"O Tempo é a Tardança daquilo que se Espera"

por    Alexandre Perlingeiro

                    
            

          Leonardo Boff, em seu livro 'Tempo de Transcendência - o Ser Humano como um Projeto Infinito' (Ed. Sextante), cita o poeta argentino Martín Fierro que diz: 'o tempo é a tardança daquilo que se espera'.

          Fiquei fascinado - e aprisionado - por esta frase. O tempo é a tardança daquilo que se espera.

          Sempre fui fascinado pelo tempo, pela nossa dimensão temporal, histórica, vale dizer, finita. Em última instância, o tempo nos remete à morte. Estamos todos remando contra o tempo. Queremos, no final das contas, é ser imortais.

          Então, voltando à frase, o tempo é a tardança, é o que faz tardar aquilo que esperamos. A pergunta, óbvia, que se faz, por conseguinte, é: o que esperamos? O que é que tanto queremos que chegue que o tempo só faz adiar? Que coisa é essa que está além do tempo, que não se combina com ele, que tanto desejamos, mas que só virá depois que o tempo se for?

          Aqui cabe um parênteses para discutirmos outro ponto. Sou muito meticuloso e preciso fazer isso por desencargo de consciência - e para que vocês exercitem a liberdade do refletir. Essa frase me suscitou alguns questionamentos. Assim como o poeta, o teólogo e eu fomos tocados, talvez alguns de vocês também tenham sido. Entretanto, as minhas respostas são minhas. É preciso que também vocês tenham as suas. Nada de dogma, nem fé, nem preguiça nem menos valia. Todos nós, cada um de nós deve se dar ao trabalho de refletir e questionar a vida. Essa é a maneira de exercitarmos uma das características mais elementares ao humano, a liberdade. Cheguei a pensar até em apenas lançar a pergunta, mas desejo compartilhar com vocês meus pontos de vista. Mas não se esqueçam, esses são os meus pontos de vista. É preciso que vocês tenham os seus. Isto pode parecer óbvio, mas não é. Ou melhor, só o é para quem tem espírito crítico. Fico preocupado com aqueles que não possuem esta grande qualidade.

          Bem, posto isto, voltemos à pergunta que não quer calar: que coisa é essa que tanto desejamos mas que só virá quando o tempo se for?

          A pergunta em si já embute algumas pistas. Se desejamos algo, é porque nos falta. Só desejamos o que nos falta - ou pelo menos aquilo que pensamos que nos falta. Ninguém seria insano para desejar o que tem consciência que já possui. Se bem que, por exemplo, dinheiro é uma coisa que alguns podem possuir em grande quantidade e ainda assim não se sentirem saciados. Talvez, especificamente neste caso do vil metal, as pessoas possam estar projetando suas carências afetivas. Pode ser assim com tudo na vida. O que realmente nos falta? O que sentem aqueles que não possuem este buraco no peito? Há
espaço para o desejo na plenitude? Creio que é do humano a incompletude, o desejo, o projeto inacabado e continuamente por se fazer, eterno vir a ser. Estaremos sempre recomeçando e seremos sempre interrompidos. Enfim...

          O que pensamos que nos falta que só virá quando sairmos da dimensão temporal?

          A plenitude? Pode ser. No sânscrito existe um termo, mahasamadhi, o grande samadhi, o grande êxtase, a grande iluminação, a grande realização, que é empregado quando um santo morre. Dizem que este é o momento em que se fundiu com o Absoluto. Então, com a morte o sábio transcende a dimensão temporal para se tornar atemporal, pleno, Absoluto.

          Com este sentido poderíamos dizer que a morte é a chegada daquilo que se espera. Mas isto cria uma oposição com a vida e nos leva a aceitar o sofrimento daqui porque depois, no paraíso, poderemos gozar. É uma forma de pensar alienante e conservadora, pois mantém tudo do jeito que está. Muito mais em nossa sociedade tão desigual, esse é um pensamento egoísta e anti-ético.

          A morte - ou o fim do tempo - não vão nos trazer nada que já não tenhamos agora. Felicidade. Aí recorro ao Tantra. Já somos, agora, neste instante, a felicidade que tanto buscamos ser.

          Aqui cabe uma explicação sobre felicidade. Felicidade é quando estamos sorrindo? É quando não estamos tristes? Os textos se referem, penso eu, a algo que ultrapassa as dualidades, que não pode ser explicado em palavras, pois vai além delas. Com este significado, poderíamos dizer que esta felicidade sofre, ri, tem raiva, briga, cansa, deseja (sem nada faltar!), enfim, algo que é do humano mais que o humano. Talvez uma equanimidade viva,
emotiva, crítica e engajada, se é que é possível isto.

          O tempo não é um impedimento nem um retardamento dessa felicidade transcendente. Já somos felicidade transcendente. Esta é nossa natureza. Por isso não precisamos fazer nada, pois já somos.

          Vou por aí. Gosto desse caminho. É o que estou seguindo agora.

          Mas gosto também da poesia. E os poetas são sábios. O tempo é a tardança daquilo que se espera. Sim. Não dou conta de explicar. Confio no poeta. Sua poesia toca meu coração e eu humildemente me inclino em reverência. Ele está certo. Há algo que esperamos que o tempo faz tardar. Paciência, sabedoria - se bem que elas nos são oferecidas por ele e não por algo além dele.

          Não sei dizer. E calo em silêncio consentido. A poesia merece nosso voto de confiança.

          Fica o mistério.

          Vocês arriscam algum palpite?

          Quem souber todo o poema, por favor, me envie para que eu possa admirar o mistério.

          O tempo é a tardança daquilo que se espera.



Alexandre Perlingeiro - Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga.
Formado pela Associação Brasileira de Professores de Yoga, com especialização em Dakshina Tantra com Paulo Murilo Rosas.
Formação em Recuperação Motora e Terapia pela Dança-Escola Angel Viana. Massoterapeuta e Shiatsuterapeuta. Arteterapeuta e Arte-Educador (Tear-RJ). Terapeuta Reikiano nível I e II.

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