Em relação ao texto intitulado 'Separações', gostaria de
complementá-lo para ter certeza de não estar sendo rígido. A verdade
está sempre no caminho do meio.
Antes de mais nada: não há críticas nem julgamentos de nenhuma
espécie nesses textos. Estou somente compartilhando meus pontos de vista
com a esperança de que possam ser úteis para alguém. Não costumo fazer
julgamentos de valor. Cada um sabe exatamente onde mais lhe dói o calo.
Pretendo agora abordar as situações em que a separação é
inevitável.
Mantenho tudo o que foi escrito anteriormente. No entanto, há que
se pensar também nas situações em que a separação é o mais indicado para
o casal.
Voltando então ao ponto de partida: o casamento, como qualquer
interação íntima e continuada - e bota íntimo e continuado nisso!, vai
nos defrontar com nossos próprios medos, contradições e idiossincrasias,
nossa sombra enfim (que, por sinal, é extremamente criativa). Faz parte
do caminho do auto-conhecimento aceitá-la (sombra) e (buscar)
incorporá-la em nossa consciência, dentro do domínio da luz.
O cônjuge, sendo nossa projeção, vai nos expor nossas próprias
mazelas, aquilo que não queremos ver nem aceitar em nós. Tudo o que não
aceito em mim renego para o reino da sombra e simultaneamente projeto no
outro. O outro, portanto, se torna o espelho daquilo que não queremos
ver em nós. É, portanto, o casamento, um movimento bastante saudável e
integrador da nossa consciência, embora esse processo seja geralmente
difícil e doloroso.
Temos aí uma premissa implícita: a vontade de se conhecer.
Necessitamos querer fazer sádhana. Quem não quer se aborrecer com
essas coisas todas certamente não encontrará motivos para persistir. É o
que acontece com a maioria das pessoas. Se se busca somente prazer no
casamento, há uma grande chance dele vir a terminar. Isso ocorre
geralmente ao término do período de lua-de-mel, que dura de 2 a 5 anos
de convivência. A chegada dos filhos pode retardar mais um pouco o fim,
mas não vai impedi-lo.
Embora quase nenhum de nós se questione sobre o assunto, há que
se ter clareza dos objetivos do casal em relação ao matrimônio. O que
esperamos desse relacionamento? Quanto estamos disponível para investir?
São perguntas cruciais que precisam ser feitas - mesmo que intuitiva,
tácita ou sutilmente. A resposta quem dá é o coração.
E vale ressaltar também que, para quem busca o auto-conhecimento,
o casamento não é a única via. É, talvez, um dos atalhos mais rápidos
para a nossa alma, mas, com toda certeza, não o único - e muito menos o
mais fácil e agradável. A realização é uma possibilidade permitida
também aos celibatários, por exemplo. Para o buscador sincero, a
sádhana ocorre em todas as dimensões da sua vida.
Uma outra maneira de dizer a mesma coisa é a seguinte: enquanto
houver amor entre os dois, o casamento deve continuar. Se o amor
desaparecer, o casamento perdeu a razão de ser, tornando-se mera
convivência (pacífica ou não). A presença ou o desejo de encontrar o
amor verdadeiro é sinal de que o anseio pela liberação está vivo em
nosso interior.
É o amor o vínculo que permeia toda a relação e que lhe dará
sustento durante os momentos de crise.
Resta-nos aprofundar sobre o significado dessa palavra tão
desgastada e ao mesmo tempo tão importante. O que é o amor? Novamente, é
o coração o local onde encontraremos as respostas para essa pergunta.
Uma coisa é certa, o amor extrapola mera atração física ou sensual. Amor
pressupõe confiança, entrega, doação, capacidade de perdoar,
paciência... para com o outro e para si próprio. Ou seja, o amor não
implica de nenhuma maneira em anulação. Se há anulação, não há amor.
Dá para notar que o que geralmente se entende por amor é algo bem
mais limitado e egoísta.
Acredito que o amor só desabroche em sua plenitude após longo e
continuado convívio. Os recém-casados estão apaixonados, mas ainda não
estão maduros o suficiente para amar.
Amor, amor, amor mesmo, só depois de 20 ou 30 anos de casado.
Antes disso é tentativa e aprendizado.
O amor necessita caminhar junto com o tempo. Sem o passar dos
dias, meses e anos, a convivência não se realiza. Amor e sabedoria são
iguais ao vinho, quanto mais velho, melhor.
Portanto, se não há amor, ou pelo menos se não há o desejo de
buscá-lo junto com a outra pessoa, eis aí um bom motivo para a
separação.
Atentem que a presença de raiva não quer dizer ausência de amor,
pelo contrário. A raiva nos mostra o quanto estamos resistindo em
aceitar a nossa própria grandeza - projetada em um outro cheio de
defeitos. Enquanto houver raiva, há amor, dois lados da mesma moeda.
Agora indiferença... aí o casamento está próximo do fim.
Note-se também que o desejo sexual é algo que vai se
transformando ao longo da relação. O fato do desejo não ser o mesmo do
início do casamento não é sinal de que as coisas estão piorando. Elas
estão apenas se transformando - o que vai exigir uma adaptação do casal.
Considero um segundo motivo para o término de um casamento:
violência física. No encontro das diferenças, muitas faíscas surgem do
atrito entre os egos. Durante as brigas, muitas vezes ocorrem agressões
verbais. No calor da discussão, o casal é tomado pela raiva e acaba
falando coisas de que se arrepende depois com a cabeça fria. E aí o(a)
parceiro(a) magoado(a) deve exercitar a capacidade de perdoar. É de
muita ajuda nesses momentos se focar no que os mantém unidos. Se for o
amor este elo, perdoar fica muito mais fácil. Observem as crianças,
brigam em um momento para no instante seguinte já voltarem a brincar
alegremente, como se nada houvesse ocorrido. Não há mágoa, rancor ou
ressentimento.
Todavia, quando há violência física, a discussão passou dos
limites e aí se torna masoquismo manter a relação. Geralmente é sinal de
baixa auto-estima.
Por fim, em relação à questão da traição, considero este assunto
restrito ao casal. Acho que, para a maioria de nós, a traição é o pior
dos crimes, motivo suficiente para o término imediato do casamento. Mas
há também aqueles que a perdoam (explícita ou tacitamente, uma ou
diversas vezes) e até mesmo a consentem (desde que feito às claras - e
avisado previamente, de preferência). Neste caso, aliás, não pode nem
ser considerada traição. Por esses dois motivos ela não pode ser
considerada como motivo obrigatório para que se busque a separação.
Em relação ao sentimento que mantém unido o casal ao longo das
tempestades, há que se lembrar constantemente que o amor não causa
sofrimento. Se há sofrimento, então não é amor e sim egoísmo. Um leva à
expansão, o outro à contração; um à liberdade, o outro à escravidão; um
nos leva ao conhecimento e o outro nos mantém na ignorância, um nos leva
à vida eterna, enquanto o outro nos mantém finitos; um nos coloca dentro
da eternidade e do Infinito e o outro pensa que pode. É na interação
entre essas forças que o casamento vai se amadurecendo e desabrochando
em sua perfeição.
Com carinho...