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"Separações" - parte II

por    Alexandre Perlingeiro

                    
                     

          Em relação ao texto intitulado 'Separações', gostaria de complementá-lo para ter certeza de não estar sendo rígido. A verdade está sempre no caminho do meio.
          Antes de mais nada: não há críticas nem julgamentos de nenhuma espécie nesses textos. Estou somente compartilhando meus pontos de vista com a esperança de que possam ser úteis para alguém. Não costumo fazer julgamentos de valor. Cada um sabe exatamente onde mais lhe dói o calo.
          Pretendo agora abordar as situações em que a separação é inevitável.
          Mantenho tudo o que foi escrito anteriormente. No entanto, há que se pensar também nas situações em que a separação é o mais indicado para o casal.

          Voltando então ao ponto de partida: o casamento, como qualquer interação íntima e continuada - e bota íntimo e continuado nisso!, vai nos defrontar com nossos próprios medos, contradições e idiossincrasias, nossa sombra enfim (que, por sinal, é extremamente criativa). Faz parte do caminho do auto-conhecimento aceitá-la (sombra) e (buscar) incorporá-la em nossa consciência, dentro do domínio da luz.
          O cônjuge, sendo nossa projeção, vai nos expor nossas próprias mazelas, aquilo que não queremos ver nem aceitar em nós. Tudo o que não aceito em mim renego para o reino da sombra e simultaneamente projeto no outro. O outro, portanto, se torna o espelho daquilo que não queremos ver em nós. É, portanto, o casamento, um movimento bastante saudável e integrador da nossa consciência, embora esse processo seja geralmente difícil e doloroso.
          Temos aí uma premissa implícita: a vontade de se conhecer. Necessitamos querer fazer sádhana. Quem não quer se aborrecer com essas coisas todas certamente não encontrará motivos para persistir. É o que acontece com a maioria das pessoas. Se se busca somente prazer no casamento, há uma grande chance dele vir a terminar. Isso ocorre geralmente ao término do período de lua-de-mel, que dura de 2 a 5 anos de convivência. A chegada dos filhos pode retardar mais um pouco o fim, mas não vai impedi-lo.
          Embora quase nenhum de nós se questione sobre o assunto, há que se ter clareza dos objetivos do casal em relação ao matrimônio. O que esperamos desse relacionamento? Quanto estamos disponível para investir? São perguntas cruciais que precisam ser feitas - mesmo que intuitiva, tácita ou sutilmente. A resposta quem dá é o coração.
          E vale ressaltar também que, para quem busca o auto-conhecimento, o casamento não é a única via. É, talvez, um dos atalhos mais rápidos para a nossa alma, mas, com toda certeza, não o único - e muito menos o mais fácil e agradável. A realização é uma possibilidade permitida também aos celibatários, por exemplo. Para o buscador sincero, a sádhana ocorre em todas as dimensões da sua vida.
          Uma outra maneira de dizer a mesma coisa é a seguinte: enquanto houver amor entre os dois, o casamento deve continuar. Se o amor desaparecer, o casamento perdeu a razão de ser, tornando-se mera convivência (pacífica ou não). A presença ou o desejo de encontrar o amor verdadeiro é sinal de que o anseio pela liberação está vivo em nosso interior.
          É o amor o vínculo que permeia toda a relação e que lhe dará sustento durante os momentos de crise.
          Resta-nos aprofundar sobre o significado dessa palavra tão desgastada e ao mesmo tempo tão importante. O que é o amor? Novamente, é o coração o local onde encontraremos as respostas para essa pergunta. Uma coisa é certa, o amor extrapola mera atração física ou sensual. Amor pressupõe confiança, entrega, doação, capacidade de perdoar, paciência... para com o outro e para si próprio. Ou seja, o amor não implica de nenhuma maneira em anulação. Se há anulação, não há amor.
          Dá para notar que o que geralmente se entende por amor é algo bem mais limitado e egoísta.
          Acredito que o amor só desabroche em sua plenitude após longo e continuado convívio. Os recém-casados estão apaixonados, mas ainda não estão maduros o suficiente para amar.
          Amor, amor, amor mesmo, só depois de 20 ou 30 anos de casado. Antes disso é tentativa e aprendizado.
          O amor necessita caminhar junto com o tempo. Sem o passar dos dias, meses e anos, a convivência não se realiza. Amor e sabedoria são iguais ao vinho, quanto mais velho, melhor.
          Portanto, se não há amor, ou pelo menos se não há o desejo de buscá-lo junto com a outra pessoa, eis aí um bom motivo para a separação.
          Atentem que a presença de raiva não quer dizer ausência de amor, pelo contrário. A raiva nos mostra o quanto estamos resistindo em aceitar a nossa própria grandeza - projetada em um outro cheio de defeitos. Enquanto houver raiva, há amor, dois lados da mesma moeda. Agora indiferença... aí o casamento está próximo do fim.
          Note-se também que o desejo sexual é algo que vai se transformando ao longo da relação. O fato do desejo não ser o mesmo do início do casamento não é sinal de que as coisas estão piorando. Elas estão apenas se transformando - o que vai exigir uma adaptação do casal.
          Considero um segundo motivo para o término de um casamento: violência física. No encontro das diferenças, muitas faíscas surgem do atrito entre os egos. Durante as brigas, muitas vezes ocorrem agressões verbais. No calor da discussão, o casal é tomado pela raiva e acaba falando coisas de que se arrepende depois com a cabeça fria. E aí o(a) parceiro(a) magoado(a) deve exercitar a capacidade de perdoar. É de muita ajuda nesses momentos se focar no que os mantém unidos. Se for o amor este elo, perdoar fica muito mais fácil. Observem as crianças, brigam em um momento para no instante seguinte já voltarem a brincar alegremente, como se nada houvesse ocorrido. Não há mágoa, rancor ou ressentimento.
          Todavia, quando há violência física, a discussão passou dos limites e aí se torna masoquismo manter a relação. Geralmente é sinal de baixa auto-estima.
          Por fim, em relação à questão da traição, considero este assunto restrito ao casal. Acho que, para a maioria de nós, a traição é o pior dos crimes, motivo suficiente para o término imediato do casamento. Mas há também aqueles que a perdoam (explícita ou tacitamente, uma ou diversas vezes) e  até mesmo a consentem (desde que feito às claras - e avisado previamente, de preferência). Neste caso, aliás, não pode nem ser considerada traição. Por esses dois motivos ela não pode ser considerada como motivo obrigatório para que se busque a separação.
          Em relação ao sentimento que mantém unido o casal ao longo das tempestades, há que se lembrar constantemente que o amor não causa sofrimento. Se há sofrimento, então não é amor e sim egoísmo. Um leva à expansão, o outro à contração; um à liberdade, o outro à escravidão; um nos leva ao conhecimento e o outro nos mantém na ignorância, um nos leva à vida eterna, enquanto o outro nos mantém finitos; um nos coloca dentro da eternidade e do Infinito e o outro pensa que pode. É na interação entre essas forças que o casamento vai se amadurecendo e desabrochando em sua perfeição.

          Com carinho...

 

Alexandre Perlingeiro - Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga.
Formado pela Associação Brasileira de Professores de Yoga, com especialização em Dakshina Tantra com Paulo Murilo Rosas.
Formação em Recuperação Motora e Terapia pela Dança-Escola Angel Viana. Massoterapeuta e Shiatsuterapeuta. Arteterapeuta e Arte-Educador (Tear-RJ). Terapeuta Reikiano nível I e II.

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Fale com Alexandre:
alexandre.perlingeiro@tantrayoga.pro.br

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