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"A Arte de Independer"

por    Charles Alberto Resende

                    
 
           

             Segundo o dicionário Aurélio, um dos conceitos de educação é “o aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas”. Esta idéia é feliz na medida em que deixa em aberto os possíveis significados do termo a uma época de constantes mudanças. E se mudam os conceitos, conseqüentemente os agentes transformadores virão a transformar-se, num processo interativo e orgânico de metamorfose para nível superior de humanização. Tornam-se necessárias definições mais precisas quanto ao papel de cada instituição no comprometimento com a educação e que correspondam melhor às exigências da atualidade.

            Ao contrário do que nos afirmaria uma mãe contemplando seu filho recém-nascido, não se nasce humano, mas com potencialidades especiais que dependerão de uma preparação específica para seu desabrochar completo. A diferenciação dessas capacidades também não é algo simples. Há aspectos do homem que são inseparáveis da porção animal, vegetal e mineral que o compõem. Mas o caráter específico que lhe confere o cunho humano em relação às suas outras partes, é tarefa da educação. Dois grupos se destacam nesse trabalho de vital importância, embora sua influência na educação não seja exclusiva: a escola e a família.

            É incumbência dos pais o desdobramento inicial das capacidades dos filhos. Aspectos como o relacionamento com as outras pessoas, a capacidade de autoexpressão, o modo como vão encarar a si mesmos e ao mundo, o uso da linguagem, etc., são primordiais para o trabalho que se seguirá na escola. Quer a vida que todo esse emaranhado em que vai se tornando a criatura seja um resultado não apenas da vontade controlada e racional dos pais, mas também, e até principalmente, do lado desconhecido, autônomo e vigoroso e ao mesmo tempo muito sutil de suas personalidades.

            A carência de racionalidade pode resolver-se com conhecimento do assunto, alguma assistência de pessoas experientes, boa vontade e paciência. Isto está inevitavelmente ligado a uma boa informação quanto à fonte desses recursos, o que permitirá livre acesso a eles, e à questão sócio-econômica.

            Já o aspecto incerto de nós mesmos não se restringe a fatores locais, mas é inerente à espécie humana como um todo. Como saber, por exemplo, se não estamos cobrando de nossos filhos o que desejaríamos para nós? Isto é correto ou não? Será que os estamos aceitando como são? Porém, como confrontar liberdade com limite? Que fatores pessoais ignorados fazem com que eu não me dê bem com eles? Haveria uma resposta definitiva e geral para todos os pais e filhos? São perguntas nada fáceis de responder. Panacéias muitas vezes tornam-se remédios amargos se não os identificamos a tempo.

Na antiguidade, esses assuntos obscuros eram trabalhados por sacerdotes, feiticeiros, sábios, reis e profetas. Os templos e outros lugares sagrados sempre foram consultórios terapêuticos da alma humana. Nosso lado inconsciente sempre foi eficazmente tratado de forma intuitiva, com respeito e temor, atitude que o homem moderno perdeu e rotula de supersticiosa e primitiva. O que antes era executado instintivamente torna-se mais complicado com o desenvolvimento da consciência e da vontade humanas. O homem alcançou as alturas e quis alcançar o sol, mas esqueceu-se de que suas asas são de cera, e de que tem de levar a terra em consideração.

            Um templo dedicado a Apolo, em Delfos (Grécia), construído há milênios, adverte: “Homem, conhece a ti mesmo!”. É óbvio que é impossível conhecer-se plenamente, mas uma disposição nesse sentido fará muito mais que qualquer coisa.

            A educação depende totalmente do autoconhecimento, pois este lhe confere a impressão de espontaneidade, de integração à maneira de ser da pessoa, tirando-lhe o caráter mecânico e técnico que não consta de uma relação verdadeira, ainda mais em se falando de pais e filhos. Basta saber o que aconteceu com a personagem central do livro “Dibs em busca de si mesmo”, de Virgínia M. Axline, uma história real. A criança era superdotada, mas escondia seu dom sob uma máscara de retardamento mental, usada inicialmente como escudo contra os pais, cujo tratamento se resumia a constantes testes e ensinamentos.

            À escola cabe o dever de vincular ainda mais o indivíduo à sociedade, de consolidar essa ligação. Sua função é diferenciar, de modo ainda mais peculiar, o que já é básico e está fundamentado pelos pais. Assim, capacidades como a criatividade, a percepção acurada, o intelecto e o sentimento, estarão vinculados à imagem que a pessoa faz de si, de como se impõe e se isenta de limites, do modo como consegue abstrair o que é concreto e vice-versa..., aptidões estas iniciadas na família. Neste ponto, convém citar Jung: “O que importa não é o grau de saber com que a criança termina a escola, mas se a escola conseguiu ou não libertar o jovem ser humano de sua identidade com a família e torná-lo consciente de si próprio”. Vemos, portanto, que cabe à escola assistir ao parto psíquico, ao rompimento do cordão umbilical psicológico, tornando o jovem mais próximo da sociedade, afastando-o o suficiente da família para que se destaque, se individualize.

            A vida é um processo constante de união e separação, daí seu dinamismo, sua continuidade rica em eventos. Se o filho é preso demasiadamente ao seio da família, seu desenvolvimento é prejudicado. O jovem torna-se apático, esconde-se atrás de atitudes rígidas e procura ter uma visão estática do mundo, para que a separação não o ameace, para que não perca o paraíso materno, para que não morra por não poder respirar outro ar que não o sangue parental que lhe vem do umbigo. Aliás, este torna-se o centro de sua atenção.

            Se a criança é desligada cedo demais, se é rejeitada, recriminada, envergonhada, ela fugirá e procurará sempre aquele lugar onde não precise suar seu rosto. O que representar o útero, aí estará ela, embora sempre com um pé atrás, nunca se entregando ao carinho, nunca cedendo. Seu reflexo terá a seus olhos uma aparência desengonçada, feia, diferente de tudo e de todos.

            Uma das recomendações constantes do maior livro de sabedoria chinesa, o I Ching, é aceitar o que o momento traz, adaptando-se a ele ao compreender a sua exigência. Como exemplo cita a água, que não hesita ante qualquer obstáculo, sempre procurando o lugar mais baixo ao se mover, nunca procurando “passar por cima”, mas superando-se a si mesma, numa flexibilidade inspiradora.

            Tanto mais infeliz será o indivíduo quanto mais resistir a esta dialética. As conseqüências que podem desencadear os pais que procuram impedir o desenlace final para a maturidade podem ser desastrosas. A escola tradicional, que procurava abarrotar de conhecimentos o jovem aluno, não pretendia libertá-lo, mas torná-lo dependente como aquele que, para saciar o apetite do faminto, dá-lhe peixe, ao invés de ensiná-lo a pescar. Aliás, esta é a atitude típica dos pais que prendem os filhos à infância: dão-lhes tudo, menos desafios. Depois os ameaçam de expulsão do conforto da casa paterna se não forem submissos. Falta-lhes saber que “educação é a arte de fazer e deixar fazer, de ser e deixar ser”.



Charles Alberto Resende, 37 anos, militar do Exército, Curso de Pedagogia Incompleto, Comandante do Tiro-de-Guerra 04-013 (Patos de Minas-MG), estudioso da obra de Carl Gustav Jung e dos sonhos.
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Charles é autor dos sites:
www.omundodossonhos.cjb.net
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