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"Coragem de Sentir Medo"

por    Alexandre Perlingeiro

                    
            

          Estava entrevistando um aluno quando, de repente, ele me diz: 'tenho medo de envelhecer e medo da morte.'

         Apesar da profundidade da frase, suas palavras saíram leves, naturais. Era assumido. Não havia negação. Ele tem medo de envelhecer e de morrer. E acrescentou: 'faço triatlhon por causa disso, para tentar impedir esse processo. Não sou irresponsável, tenho esposa e filhos, mas tento pelo menos retardar o meu envelhecimento.'

          Fiquei admirado com ele. A grande maioria das pessoas sequer pensa no assunto e ele, ali, bem diante de mim, falando com uma naturalidade espantosa.

          Bem, não sei se esse assunto é tão natural assim - a morte não é tema banal. Mas ele assumiu seus medos. Acho que esse é o primeiro e mais difícil passo que precisa ser dado. Ainda não sei a que custo ele atingiu essa maturidade, mas fico feliz pelo progresso que alcançou.

          Aliás, para ser bem sincero, acho que até o invejo.

          Os yogues costumamos falar da morte com naturalidade, como se fosse algo banal. E não é. O momento do fim do corpo físico, o término da encenação, a hora do rio se encontrar com o mar, é um marco no grande drama cósmico. A morte nunca é banal, como também nunca é banal o início, o princípio, o começo, o nascimento. Princípio e fim são marcos que necessitam, devem, merecem ser destacados - e até comemorados - com alegria e dor. Tanto em um como em outro devemos prantear e gargalhar. 
Em última instância, é a vida que estamos pranteando e gargalhando. Ou melhor, é o Absoluto que está se (auto) homenageando.

          Mas os yogues tendemos a negar a dimensão grandiosa desse instante. Talvez seja mecanismo de defesa, sei lá. Frases do tipo 'a morte faz parte da vida' são freqüentes na boca daqueles que seguem o caminho de Shiva e, no entanto, essas palavras nada dizem e, às vezes, até distorcem os ensinamentos. O que o próprio deus da transformação, o removedor de nossa ignorância, a consciência que a tudo permeia, diria a respeito disso tudo? Ilusão? Que são ambos, início e fim, vida e morte, lados de uma mesma coisa?

          Gosto do Dalai Lama quando diz que mesmo tendo se preparado a vida inteira para esse instante derradeiro, só quando chegar sua hora é que saberá exatamente como é. Afinal, treino é treino e jogo é jogo.

          Quem é mais corajoso, aquele que sente medo ou o outro que não sente nada?

Alexandre Perlingeiro - Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga.
Formado pela Associação Brasileira de Professores de Yoga, com especialização em Dakshina Tantra com Paulo Murilo Rosas.
Formação em Recuperação Motora e Terapia pela Dança-Escola Angel Viana. Massoterapeuta e Shiatsuterapeuta. Arteterapeuta e Arte-Educador (Tear-RJ). Terapeuta Reikiano nível I e II.

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