Home - Anjo da Guarda - Cursos - Artigos - Magia Divina - Lojinha - e-mail

 

"Para quê servem as Coincidências" - parte II

por    Charles Alberto Resende

                    
 
       Vamos agora, com alguns exemplos de sincronicidade, procurar perceber para onde aponta esse processo misterioso.

          Um amigo tenta resolver um conflito íntimo: é casado e tem um caso com outra mulher na cidade que mora hoje em dia. Há mais de quatro anos conhecera uma mulher no norte do país, mas deu graças a Deus por ter deixado aquela região por encargos profissionais. Sente-se culpado, atualmente, principalmente por causa do filho, por trair a esposa. Os sonhos apontam para conflitos mal resolvidos na juventude, para lembranças soterradas na memória e para sua falta de autoconfiança. Um dia lhe contaram que uma mulher, dizendo-se proveniente da região amazônica, lhe ligara, querendo falar-lhe pessoalmente. O que a dita mulher, residente a mais de 5.000 Km, distante no tempo há mais de 4 anos, poderia querer com ele? Mas tudo indica que não passou de um trote. Depois ele contou ter descoberto que a mulher que ele realmente amava havia sido deixada no norte. Ela era para ele como uma alma gêmea. Trote ou não, o fato é que o que ocorreu foi muito significativo por tratar de algo que ele estava tentando resolver justamente naquele momento, embora o fizesse reportar-se há mais de quatro anos no tempo. A "brincadeira de mau gosto" parecia afirmar: "Olha, você se esqueceu desse detalhe. É importante que você dê atenção a isso agora".

          Jung conta um caso relatado por Wilhelm von Scholz (que recolhera uma série de casos de objetos perdidos que retornam estranhamente às mãos dos donos) de uma mulher que mandou revelar um filme em Estrasburgo...

 

          Mas como havia estourado a guerra (1914), ela não pôde mais reaver o filme, e o considerou perdido. Em 1916 comprou um filme em Frankfurt para bater a fotografia de uma filhinha que nascera nesse meio tempo. Quando o filme foi revelado, verificou-se que tinha sido usado duas vezes: a segunda imagem era a fotografia do filhinho, que ela tirara em 1914! O antigo filme não fora revelado, e não se sabe como fora posto de novo à venda entre novos filmes. O autor chega à conclusão, em si compreensível, de que todos os indícios apontam para uma "força de atração" destes objetos relacionados. Ele suspeita que os acontecimentos se dispuseram de tal modo, como se fossem o sonho de uma "consciência maior e mais abrangente, por nós desconhecida".

          Quem tem experiência em trabalho com sonhos sabe o quanto as imagens oníricas estão relacionadas entre si revelando múltiplos significados e unindo vários fatos de nossa vida exterior e interior. Além disso, esse tipo de atividade acaba geralmente ativando acontecimentos que têm muito a ver com o significado ou com a imagem do sonho em si. Numa palavra, é como se nossos sonhos não estivessem contidos apenas naquele pequeno período que passamos a sonhar, mas, como um peixe escorregadio, escapasse dos sonhos para materializar-se no nosso cotidiano, na nossa vida exterior.

          Uma série de livros de Arnold Mindell trata do chamado corpo onírico, um conceito que trata das sincronicidades, dos relacionamentos e dos sintomas corporais como sonhos que tentam acontecer. Num desses livros encontra-se uma bela experiência:

 

          Quando Esther e eu começamos a conversar, ela pôs a mão na parte de trás da cabeça e me disse que tivera dificuldade para dormir na noite anterior por causa de dores "pressionantes" no pescoço, que atingiam em pontadas a região dos rins. Repetiu várias vezes o movimento das mãos. Por isso, decidi repeti-los conscientemente com ela. Disse-lhe: "Gostaria de pôr minha mão em suas costas, ou no pescoço, onde você sentir que é mais apropriado". Ao proceder dessa forma, eu estava me valendo de sua sabedoria corporal, de sua propriocepção, para dirigir minha mão a fazer coisas que a mão dela estava tentando executar. Assim que pus minha mão em suas costas, ela me disse que a pusesse no pescoço. Perguntei o quanto deveria pressionar. Ela me pediu uma pressão cada vez maior, até que eu estava praticamente empurrando-a contra o chão e aplicando muita pressão em sua nuca.

          Assim que sua cabeça tocou o chão, ela comentou espontaneamente que eu estava agindo como uma das figuras de seu sonho, um demônio que a lançava para dentro de um buraco. Assim que teve a nítida visualização do demônio pressionando-a para baixo, assim que seu canal tinha mudado da pressão para a imagem onírica, ela trocou de papéis e me mostrou como o demônio a empurrava contra o chão. Depois de alguns minutos, o "demônio" falou sem hesitação: "Ou você me leva com você quando sair, ou vai ter que ficar no buraco". Isso revelou que ela estava aprendendo a ser mais instintiva e honesta em público. Geralmente, era doce demais, ou omissa. Por isso, pedi-lhe que atentasse para o trabalho com seu corpo onírico exatamente naquele momento, em minha presença, e que fosse diabolicamente honesta comigo a respeito do que gostava e do que não gostava. Essa etapa depois passou para o canal do relacionamento.

          Vemos no trabalho citado um aspecto interessante do comportamento corporal. Sua dor nas costas e os movimentos de suas mãos eram reações de raiva contra si mesma por não ser honesta, por ser doce demais. A dor nas costas era como um sonho, um diabo, que tentava atingir a consciência para lhe dizer que fosse mais direta. Podemos dizer que seu corpo estava sonhando por meio da dor nas costas.

          Assim, os acontecimentos da vida, os entraves nos nossos relacionamentos, as doenças, os sonhos, e até uma folha que cai lá fora, num certo momento, parecem fazer parte de um processo abrangente. É como se fossem a metáfora de um holograma. Quando tiramos uma pequena parte de uma estrutura holográfica e usamos a luz para projetá-la, veremos o holograma na sua totalidade e não apenas aquela parte da figura. Parece que o todo está nas partes assim como as partes compõem o todo.

          Uma outra idéia que me vem à mente e que tem a ver com o que falamos aqui é sobre a influência de substâncias materiais no nosso psiquismo. Não é perfeitamente plausível dizer que são as substâncias sutis depositadas na nossa corrente sangüínea, tais como os hormônios, que provocam certas emoções, como pretendem explicar certos cientistas. Não existe uma prova da ligação de causa e efeito nesse caso, apesar das evidências. Mas, para ser o mais isento possível, dir-se-ia que o que existe sim, é uma correlação do aumento daquela substância no sangue com o advento de determinadas emoções. Este é o fato. Digamos que, quando provocamos um processo material no nosso corpo, ocorre uma alteração correspondente a nível psíquico, mas isso não prova que seja uma relação tipo causa-efeito. E nesse exemplo se encontra a resposta à proposta deste artigo. As coincidências significativas podem servir como pistas para certos processos que estão acontecendo. Atentando para determinado processo poderemos ter uma noção da ação mais apropriada para o momento.

          Para isso serve o I Ching, oráculo chinês milenar, que pretende revelar o significado do processo em andamento. As moedas que caem para revelar o hexagrama do momento – o qual possui um texto respectivo - o fazem de acordo com as circunstâncias atuais. O destino, então, passa a ser algo relativo. Isso explica porque muitas pessoas concordam enquanto outras se opõem a essa noção. Se estamos cientes do que está tentando acontecer, podemos usar de nossa vontade para dirigir o processo da melhor forma. Se, no entanto, somos ignorantes de todas essas inter-relações, a vida fica parecendo mais como um fardo que temos que carregar, sem que saibamos o porque nem para que – um destino insuportável. Neste ponto talvez perguntássemos qual é a vontade de Deus nesse momento, falando em termos religiosos; ou, para sermos mais científicos, perguntássemos o que está tentando acontecer, e agir de acordo, para dinamizarmos e muito nossas vidas. Então, seríamos muito mais pacientes, não por um mero conformismo, mas por termos uma noção do sentido da existência. Ou fôssemos mais atuantes, não porque pretendemos nos guiar por uma vontade férrea, mas porque sabemos qual o significado dessa vontade no contexto em questão. Nesse caso poderemos nos sentir plenamente realizados porque estamos agindo de acordo com o sentido da corrente das águas do nosso rio da vida.

 

4 "A Décima Profecia", de James Redfield, Ed. Objetiva, pág. 175.

5 "A Dinâmica do Inconsciente", Vol. VIII das Obras Completas de Carl G. Jung, pág. 450.

6 "O Caminho do Rio – A Ciência dos Processos do Corpo Onírico", de Arnold Mindell, Summus Editorial, pág. 45.



Charles Alberto Resende, 37 anos, militar do Exército, Curso de Pedagogia Incompleto, Comandante do Tiro-de-Guerra 04-013 (Patos de Minas-MG), estudioso da obra de Carl Gustav Jung e dos sonhos.
Clique aqui para ver outros artigos de Charles:



Fale com Charles

Charles é autor dos sites:
www.omundodossonhos.cjb.net
www.imaginacaoativa.cjb.net

Quer receber por e-mail os textos semanais? Cadastre-se:

Home - Anjo da Guarda - Cursos - Artigos - Magia Divina - Lojinha - e-mail