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"Para quê servem as Coincidências" - parte I

por    Charles Alberto Resende

                    
 
           

          Coincidência é a "Simultaneidade de dois ou mais acontecimentos" (Novo Dicionário Aurélio, Nova Fronteira). A sincronicidade, um termo introduzido por Jung, descreve um fenômeno idêntico ao da coincidência, acrescentando-se apenas que os referidos acontecimentos são ligados por um mesmo significado, uma mesma idéia. Isso porque existem coincidências comuns, que não despertam maior interesse devido à simultaneidade dos fatos ligar-se através de causas naturais, e coincidências significativas, estas sim sinônimas da sincronicidade.

          Quando acontece uma sincronicidade, a pessoa que a presenciou é afetada emocionalmente. Um sonho que prevê um acontecimento que acaba ocorrendo, por exemplo, é uma forma de sincronicidade. O sonho e o fato previsto ocorrem num certo período de tempo e estão relacionados pelo que significam. O sonhador fica surpreso, ou até fortemente abalado emocionalmente, conforme o caso, quando seu sonho se realiza. Os dois termos, portanto, não se baseiam em crença alguma, mas descrevem fenômenos comuns a todas as pessoas, embora, no caso da sincronicidade, o fenômeno não tenha sido provado, testado e repetido em laboratórios, isto é, tido como científico pelas ciências exatas. Porém, sabemos que nem tudo é passível de reprodução em laboratório, principalmente coisas que estão ligadas diretamente à psique humana.

          A civilização ocidental tem toda uma história de ênfase no ponto de vista causal. O enunciado de que "a toda causa segue um efeito" é o principal dogma científico de uma "religião" que imperou por muito tempo nos bancos acadêmicos – o materialismo. Uso essa expressão devido ao tom veemente com que os materialistas defendem suas idéias e à reverência com que explicam a origem de tudo a partir do seu "deus": a matéria. Um longo conflito seguiu-se durante séculos entre a religião e a ciência. Seus adeptos em princípio não se conciliam de jeito nenhum, mas por vezes têm muita coisa em comum, entre elas o fanatismo por supostas verdades ainda não experienciadas em toda sua extensão.

          O causalismo como princípio é uma verdade científica, mas não é extensiva a todos os fenômenos existentes no universo. Querer abranger todos os fenômenos através do causalismo e/ou do materialismo é enquadrar o universo num âmbito estreito demais, não deixando espaço para outras possibilidades. Segundo Schopenhauer "Todos os acontecimentos da vida de uma pessoa estariam, consequentemente, em duas espécies de conexão fundamentalmente diferentes: em primeiro lugar, numa conexão objetiva causal do processo natural; em segundo lugar, numa relação subjetiva que só existe com respeito ao indivíduo que a experimenta, e que é, portanto, tão subjetiva quanto os seus próprios sonhos..." Além disso, não podemos nos esquecer de que todos os conceitos científicos têm sua origem na psique do homem, e que todas as percepções consideradas "objetivas", acabam passando por um processo de interpretação psíquica. No final, é impossível, mesmo que queiramos, afirmarmos que uma certa noção é inteiramente isolada de qualquer outro significado. Ainda sempre restará o significado atribuído por algo em nós sobre a qual não temos domínio algum, mesmo que atue a vontade mais férrea que possamos desfrutar.

          Por outro lado, ninguém pode afirmar categoricamente que "Deus não existe", por exemplo, pois sua realidade não depende do debate de idéias. Tudo o que fica apenas no nível das idéias é suscetível de dúvida. E para muitas pessoas a espiritualidade vêm de um conhecimento direto que não depende de suposições e especulações, embora esse conhecimento seja individual e intransmissível a outro, e por isso, considerado "subjetivo". Não é porque uma dada experiência seja considerada subjetiva que a podemos refutar com argumentos igualmente subjetivos, ou de categoria diferente. Mesmo interiormente apreciamos muitas experiências diferentes, de caráter próprio, e nem por isso precisamos mesclá-las entre si, apenas porque derivam de nossa subjetividade.

          Ao lado do causalismo científico ocidental, desenvolveram-se várias outras civilizações cuja principal preocupação não era o pensamento lógico linear, mas o sentimento de sincronia dos significados. Assim como a "causalidade descreve a seqüência dos acontecimentos, a sincronicidade, para a mente chinesa, lida com a coincidência de eventos". Quer dizer, todo o pensamento científico se baseou no ponto de vista da seqüência dos fatos. Mas será um erro ocupar-se também com a simultaneidade dos acontecimentos? Não se fará assim muito mais justiça à totalidade dos fenômenos? Porque, afinal, estamos falando aqui dos critérios que selecionam nossas experiências (coisa bem discutível) e não dos fatos em si.

          Quando acontece uma sincronicidade não demora aparecer pessoas, sobretudo tidas como "cultas", para dizer que isso não passou de mera coincidência, e achar que há algum significado oculto nisso é persistir em superstições sem fundamento. Mas não é preciso ser um psicólogo para saber que até as mais bestas superstições têm sim um fundamento, um por quê, um significado.

          Marion R. Gallbach, autora de "Aprendendo com os sonhos", Paulus, cita um trecho de Jung que vem bem a calhar aqui:

 

O lago é um símbolo do inconsciente. (...) Porque quando
você tenta olhar no inconsciente, você não vê nada, você
só vê seu ego, nada mais. Por ser escuro embaixo e claro
em cima, você só vê a si mesmo. Mas você sabe que
milhares de coisas estão afundadas lá... monstros, a noite
eterna..., o mundo de nossos ancestrais, até o nosso
mundo de criança ainda se encontra nestas profundezas
(...). Podemos assumir que todo um mundo está naufra-
gado no fundo do mar – como Atlantis – e não vemos nada
a não ser nosso próprio reflexo refletido naquela superfície
brilhante" (Jung, 1930, p. 20).

          Isto é, quando olhamos para algo que desconhecemos tendemos a ver a nossa própria imagem, as nossas concepções, as estruturas de pensamento com que procuramos abarcar o mundo. E é isto que muitos de nós fazemos com as coincidências com que nos deparamos no dia a dia. Mas tudo indica que elas são feitas, ou se originam, do mesmo material com que lida a psicologia: o inconsciente – o mundo dos anseios reprimidos, dos fatos esquecidos, das emoções e dos pensamentos arcaicos, dos mitos, das fábulas e das lendas... A existência da sincronicidade parece nos querer lembrar que os acontecimentos exteriores não são tão exteriores assim, ou que eles têm no mínimo uma ligação oculta com nossa psique através do Inconsciente Coletivo, como descreveu Jung. As coincidências parecem nos indicar um caminho. Como se houvesse algo no ar, impalpável, mas que procura se materializar através de relações estranhas. A sincronicidade "traz o foco da atenção para os processos intencionais e não intencionais, para o que está acontecendo e para o que está buscando acontecer". "Parece que cada pessoa atrai dois tipos de acontecimentos: aqueles em que ela acredita e aqueles que ela teme. Mas faz isso inconscientemente. (...) creio que podemos conseguir muita coisa quando trazemos o processo para um nível plenamente consciente", diz James Redfield.

(esse texto continua)

1Citado por Carl Gustav Jung em "A Dinâmica do Inconsciente", Vol VIII, Vozes, pág 446.

2 Introdução de Carl G. Jung em "I Ching – O Livro das Mutações", de Richard Wilhelm, Ed. Pensamento, pág. 17.

3 Adaptação do autor de um trecho do livro de Arnold Mindell, "O Corpo Onírico nos Relacionamentos", pág. 15.



Charles Alberto Resende, 37 anos, militar do Exército, Curso de Pedagogia Incompleto, Comandante do Tiro-de-Guerra 04-013 (Patos de Minas-MG), estudioso da obra de Carl Gustav Jung e dos sonhos.
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Charles é autor dos sites:
www.omundodossonhos.cjb.net
www.imaginacaoativa.cjb.net

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