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"A Construção do Cérebro"

por    Charles Alberto Resende

                    
 
         

          A tecnologia avança e a ciência materialista cada vez mais progride em mapear fisicamente processos tidos como psíquicos, seja através da observação direta ou através de uma variedade de equipamentos modernos. Um dos frutos disto é o descobrimento das "janelas da oportunidade", etapas no desenvolvimento das crianças em que poderão ser estimuladas certas faculdades. Podemos tirar muitas lições destas descobertas.

          Uma delas é a comprovação de que as surras são experiências que deflagram no cérebro substâncias inibitórias de funções importantes. A imagem do agressor pode até ser "vista" num aparelho de ressonância magnética. O mesmo geralmente ocorre em crianças que passam pela dura experiência de separação dos pais.  Não é à toa que perdem o interesse pelo estudo, já que suas capacidades não as inclinam naturalmente para isso.

          Numa analogia com a informática, o corpo humano como que carrega um programa em disco rígido, o qual é posto para funcionar desde o encontro do óvulo com o espermatozóide. Este "sistema operacional" é como se fosse um sistema de formação do corpo humano; já os programas mais específicos (editores de texto, de planilhas, de imagens, etc.), seriam uma analogia para o sistema de especialização. O primeiro se desdobra quase inteiramente no útero. Os outros são ativados com os primeiros estímulos do mundo exterior e condicionam comportamentos e atitudes da criança com o fim de que esta tire o maior proveito possível de todo o complexo da vida. Aliás, estes mesmos estímulos é que irão construir as milhares de fibras nervosas que o adulto possuirá futuramente. O cérebro recém-nascido é constituído inteiramente de células não-especializadas que só serão chamadas de neurônios quando formarem axônios (os elos de ligação de uns com os outros), e o fazem através de desafios, obstáculos e estímulos.

          Mas os estímulos não se resumem somente na influência sensorial. A coisa toda é bem mais sutil. Existem pais, por exemplo, que evitam pegar a criança, pô-la no colo, achando que poderá crescer dependente. Ledo engano: a independência só é conseguida por aquele que se emaranhou nas teias da necessidade, da submissão e do carinho. Àquele que se negou dependência, negou-se também a liberdade de ser ele mesmo, por mais estranho que isso possa parecer. As crianças criadas no colo começam a andar mais cedo, estatisticamente. As que recebem carinho em resposta ao seu medo ou outra emoção dolorosa, aprendem a compreender seus sentimentos quando tudo parece desabar, estabelecendo assim determinados circuitos neurais.

           Várias outras capacidades são associadas a estímulos próprios exercidos em períodos adequados. A música está relacionada à percepção de sons sutis. As "bagunças", as correrias, os jogos, exercitam o equilíbrio físico, a expressão dos sentimentos, o relacionamento, a especialização dos hemisférios cerebrais, o senso de direção e lateralidade, etc. De toda esta "sopa" de experiências o cérebro infantil desenvolverá o sentido de organização que alcançará o auge nos primeiros indícios de raciocínio lógico-formal. O pensamento passa a ser mais palpável e perceptível, e ganha a autonomia conferida pela consciência, que se desenvolve proporcionalmente à formação do eu.

          Mas o problema de toda essa gama de descobertas está em, estando a par de informações tão detalhadas, ainda não se respeitar o "momento" individual. A ciência materialista trabalha com números, com estatísticas, e estas estão longe de respeitar a originalidade da vida de cada um. Se em 90% dos casos as criança já podem desenvolver a habilidade da leitura aos 4 anos, isso não significa que uma dada criança se enquadre nesta probabilidade. E já se comprovou que estímulos efetuados em épocas inadequadas podem provocar distúrbios difíceis de se superar. O homem moderno quer saber intelectualmente o que já lhe é dado naturalmente.

          Portanto, a receita mais conhecida desde tempos imemoriais, e que nos é dada instintivamente, ainda continua em vigor: o amor, a atenção à pessoa como um todo. O amor porá nas mãos da criança o que ela mais precisará na vida inteira - a habilidade de viver.

Charles Alberto Resende, 37 anos, militar do Exército, Curso de Pedagogia Incompleto, Comandante do Tiro-de-Guerra 04-013 (Patos de Minas-MG), estudioso da obra de Carl Gustav Jung e dos sonhos.
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