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"Amizade - Instrumento do Autoconhecimento" por Charles Alberto Resende |
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Há poucos dias um amigo me perguntou o que era amizade no meu ponto de vista. É com base nisso que resolvi escrever este ensaio. Amizade, em princípio, é inseparável do autoconhecimento, assim como qualquer outro relacionamento com certa profundidade. Ser amigo não é apenas confiar e ser leal, mas aceitar o outro incondicionalmente, com suas qualidades e defeitos, embora a aceitação desses defeitos não signifique concordar com os mesmos. Aceitar as inferioridades do outro é não espantar-se, não horrorizar-se, como se não portássemos algo semelhante ou até pior. É ter primeiro a coragem de admitir o pior em nós mesmos – daí deriva a calma em se admitir o lado negro do outro. Deixar o outro ser ele mesmo enquanto se está ali, perto dele, naquele instante. Saber que não adianta lutar, esbravejar, matar, nem degolar, que vamos sempre continuar sendo o que sempre fomos. Mudar é impossível quando é essa nossa intenção. Como posso mudar se sou eu o agente da mudança? No entanto, sei por experiência que é quando nos rendemos, quando não resistimos ao mal, como Cristo nos ensinou, aí é que, como uma dádiva, a mudança ocorre. Isto se sucede, porém, devido à compreensão que alcançamos; também porque a mudança sempre parte de algum ponto e, se não aceitamos o ponto de partida, que é justamente o estado que tanto rejeitamos, não podemos empreender mudança alguma. Parece que só podemos ser melhores enquanto aceitamos ser piores, porque um nunca pode existir sem o outro. Apenas existe a opção pelo melhor se admitirmos que poderíamos também escolher o pior, que está tão disponível em nós quanto o primeiro. Portanto, se quisermos a paz temos que ser realmente completos, inteiros e não unilaterais. É deste modo que Cristo ensinou: "a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil." (Mt 5, 39-41) Costumamos interpretar os ensinamentos cristãos ao nível exterior, com relação aos outros, lá fora, e não com relação aos "outros" que temos dentro de nós. Sim, porque não somos apenas um. Ilude-se aquele que, embora ouvindo as variadas vozes que clamam dentro de si, muitas vezes contradizendo os próprios desejos e até necessidades, teima em achar que é apenas "Fulano". Infelizmente não somos in-divíduos (não divididos). Estamos longe disso. Mas a amizade pode ajudar e muito a nos sentirmos realizados. Vejo a amizade como um processo de espelhamento do outro. Alguém nos procura desesperado e ao invés de o desviarmos daquilo que tanto o oprime, nós o espelhamos, procuramos mostrar a ele a sua condição, o estado em que se encontra, o(s) sentimento(s) que tanto o perturba(m). Aprendemos desde o berço a rejeitar as emoções negativas: raiva, medo, rancor, mágoa, tristeza, decepção, etc., e a incentivar as positivas. Mas por que? Acho que a principal razão é que as emoções negativas defendem o indivíduo, enquanto as positivas o integram aos outros e à sociedade. Porém, alguém já refletiu que toda emoção negativa sempre tem um fundamento? Ninguém sente medo à toa, nem mágoa e nem decepção. Mas insistimos em rejeitá-las. "Ah, porque alguém pode não entender corretamente uma situação..." Sim, isso pode acontecer. Mas o erro então está na compreensão equívoca da pessoa e não na emoção conseqüente. Um amigo desde os 7 anos rói unhas. Todo mundo sabe que quem faz isso o faz sem querer. "É ele em mim que rói as unhas." Afinal, o que têm as unhas para meu amigo querer comê-las? "As unhas protegem partes vulneráveis do nosso corpo (as pontas dos dedos) e acumulam sujeiras." – foi o que ele disse. Ele também reclamou que um peito era menor que o outro quando perguntei de qual parte do seu corpo ele não gostava. "Algo que o protege nas partes vulneráveis e que acumula sujeira – existe algo assim em sua vida?" Ele contou-me várias lembranças de como, quando criança, era obrigado a ajudar o pai na roça contra a sua vontade enquanto os irmãos não o faziam. "Ou eu ia ou levava uma surra." Falou da mudança para a cidade, das dificuldades de adaptação que passou, dos colegas que lhe batiam e de como aprendeu a suportá-los. Enfim, o que ele queria dizer é que a raiva era como suas unhas. A raiva protege o ego dos agressores e exige sua expressão. Aliás, o que vários animais fazem quando se sentem ameaçados é justamente "mostrar as garras". Perguntei-lhe para onde apontamos quando estamos nos referindo a nós mesmos. Imediatamente ele entendeu que o seu peito menor tinha algo a ver com a proteção que fazia questão de não ter. Não é à toa que um indivíduo raivoso estufa o peito num ímpeto de exigir respeito. Coincidentemente, ele só pensara em parar de roer unhas quando começou a expressar seu rancor ao pai. Com o esforço da vontade, ele poderia até deixar o hábito de lado, mas com certeza ele ia ter que arrumar um outro jeito de roer sua raiva se não percebesse que precisava expressá-la de algum jeito. No CVV (Centro de Valorização da Vida), aprendi o quanto são úteis as "frases compreensivas". Ouvimos o nosso amigo colocando-nos no seu lugar, tentando compreender como é perceber sua vida pelos seus sentimentos, e expressamos eventualmente o quanto o estamos compreendendo por palavras que descrevem o seu estado. Isso é útil para nos certificarmos de que realmente o estamos acompanhando e não nos desviamos para perspectivas pessoais nossas. Aprendi também da necessidade que o outro tem de falar. Quando falamos da nossa vida e de nós mesmos de certa forma nos distanciamos para percebermos o que está ocorrendo, e só então podemos descrevê-la. Deixamos de nos identificar com a situação perturbadora para conhecê-la a partir de alguém que está de fora da situação. De alguma forma nos tornamos mais reais e objetivos, pois não estamos nos experimentando apenas subjetivamente, estamos falando de algo para alguém. Os pensamentos, sentimentos e fantasias que pairam nas nossas cabeças finalmente conseguem o que querem: que demos importância e atenção a eles, e é talvez por isso que deixam de nos incomodar. Se somos capazes de relatar a alguém coisas tão íntimas e passíveis de crítica, é porque damos valor a essas pequenas coisas. Consequentemente, estamos sendo nós mesmos para o outro e não resistindo à nossa natureza. E aí, quando nos entregamos a tudo isso, deixando de nos molestar para sermos o que não somos, é que acontece a graça – um sentimento de liberdade, de leveza e de unidade nos inunda. É o efeito do "desabafo". "Abafar" quer dizer primordialmente cobrir, seja para conservar o calor ou impedir a evaporação. Desabafar é descobrir, deixar escapar e sair aquilo que estava impedido ou bloqueado. Havia uma espécie de fornalha interiormente e agora decidimos nos aliviar da carga, da pressão incômoda. Há apenas mais dois pontos que quero enfatizar. A importância de não criticar e não aconselhar. Se alguém está tão incomodado por sentimentos negativos, isso é sinal, normalmente, de que não está se importando de alguma forma com o auxílio que recebemos da natureza para nos protegermos de ameaças externas. Criticar esses sentimentos negativos não irá levar a lugar nenhum, pois isso o nosso amigo já está fazendo, pode ter certeza. E assim que a nuvem de confusão passar pela disponibilidade que lhe oferecemos para ouvi-lo e compreendê-lo, ele certamente saberá que caminho tomar, ou pelo menos o que não deverá fazer de imediato. Essa é a lealdade e a confiança para com o amigo. Ele não precisa de orientações, sejam na forma de crítica ou de conselho. Orientação todos possuímos quando estamos nos sentindo em paz com a vida, ao lado de amigos que percebem que não precisamos ser como eles, mas que temos valor justamente por sermos diferentes e únicos. Quero ter amigos e fazer muitos amigos. Com certeza não faz parte da amizade apenas o que eu exprimi aqui. Mas espero ter ficado bem claro que um amigo como o que descrevi é essencialmente um companheiro de vida, um anjo da guarda que compartilha não o meu sangue, mas o meu ser. E quanto mais os possuir, maior me sentirei, pois não serei apenas eu, mas também eles, no mistério de ser um in-divíduo, unidade interior e exterior.
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| Charles
Alberto Resende, 37 anos, militar do Exército, Curso de Pedagogia
Incompleto, Comandante do Tiro-de-Guerra 04-013 (Patos de Minas-MG),
estudioso da obra de Carl Gustav Jung e dos sonhos. |
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