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"Sobrevoando Nárnia"

Texto de   Gabriele Greggersen   

                    
 


 

          Muitos de nós rememoramos recentemente a paixão, morte e ressurreição de Cristo. Mas quem é que se lembrou do filme Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa? Certamente apenas aqueles que assistiram ao filme e sabem fazer pontes entre dois eventos aparentemente tão desconexos no tempo e no espaço.
          Um dos eventos trata da realidade histórica, dominada pelo Império Romano e rendida a um judaísmo vazio de esperanças messiânicas de um mundo melhor, até que o filho de um marceneiro irrompe, dizendo-se Filho de Deus, perdoando pecados, curando os enfermos e cuidando dos famintos. O outro evento não passa de fantasia, a respeito de uma terra estranha, de nome ainda mais estranho, dominada por uma Feiticeira Branca, ainda mais tenebrosa. Diz-se que era sempre inverno, mas nunca vinha a esperança de paz e harmonia do Natal. Então um misterioso leão de nome não menos assustador, Aslam, entrega a quatro crianças armas e ferramentas para a cura e a batalha contra as forças do mal. Que relação pode ter uma coisa com a outra?
          A páscoa diz respeito à morte absurda de um inocente no madeiro da cruz, que traria a remissão de pecados, a restauração do relacionamento com Deus e a vida eterna. Nárnia diz respeito a um leão que se sacrifica para evitar o derramamento do sangue de um humano culpado de traição. Na cruz real, o mal foi vencido, não em batalhas sangrentas com direito aos efeitos especiais de Hollywood, mas com um sopro de sua boca (Is 11:4); em Nárnia, os que ficaram decepcionados com a brevidade da luta entre Aslam e a Feiticeira são os que demoram a cair na real.
          Lewis costumava dizer que as Crônicas de Nárnia não eram “alegorias” ao Evangelho, ou seja, que cada elemento tinha um só significado bíblico necessário. Mas admitia que elas permitiam que se fizesse alusões aos princípios e história do cristianismo, porque ele mesmo não tinha como e nem porque negar que estava impregnado pelos mesmos.
          Infelizmente, os crentes brasileiros, nas palavras de Caio Fábio, costumam ver “pelo em ovo” e, com isso, jogam o bebê junto com a água do banho, ou seja, de tão fixados que ficam no suposto “perigo” que vêem nas figuras e imagens mitológicas, na feiticeira ou no sangue das batalhas, perdem o essencial do filme/livro, que são os princípios éticos, filosóficos e teológicos do cristianismo. Perdem ainda a oportunidade sagrada e, às vezes, única, de fazer com aquele amigo, familiar ou vizinho tenha contato com essa mesma essência.
          Assim, embora Lewis não tivesse a intenção explícita de falar do evangelho e imitar o gênero e estilo literário dos evangelistas, ele criou Nárnia e forneceu-nos uma poderosa arma de evangelização num mundo bem parecido com aquele dos tempos de Jesus: saturado de igrejas e crentes, de religiosidade hipócrita e de uma sociedade racionalista e robotizada, onde o excesso de informação já não deixa espaço ao lúdico e à imaginação humanizadora e moralizante.
          Com Nárnia, Lewis parece nos alertar: da mesma forma que a imaginação é a porta mágica para Nárnia e para a superação de um mundo em estado de guerra e desespero, Cristo, cujo verdadeiro resplendor e glória só conseguimos captar pela nossa imaginação, é a porta para o verdadeiro sentido da vida, consolo real e superação da nossa condição miserável (Rm 7). Não é para menos que Lewis dizia que a razão e a imaginação são como duas asas de um anjo. Enquanto uma é órgão da verdade, a outra é o do sentido. Nenhuma das duas pode ser desprezada para quem quer alçar altos vôos no conhecimento de Deus e na prática da vida cristã autêntica (Cf. O Evangelho de Nárnia – Vida Nova).
          Espero que os cristãos brasileiros despertem e mobilizem-se, como todo o resto do mundo, para trabalhar as ricas e multifacetadas mensagens de Nárnia nas escolas, lares e organizações, conforme metodologia que proponho em meu livro A Magia das Crônicas de Nárnia (GW Editora), já com vistas ao preparo e aproveitamento máximo do segundo filme, que deve ser lançado em dezembro desse ano, Príncipe Caspian.

 

  Esse texto faz parte da Revista POVOS www.revistapovos.com.br

Gabriele Greggersen é Mestre, Ph.D em Filosofia da Educação e pós-doutora na área de História das Mentalidades pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Além de docente e pesquisadora da Universidade Presbiteriana Mackenzie.


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