Muitos de nós rememoramos recentemente a paixão, morte e
ressurreição de Cristo. Mas quem é que se lembrou do filme Nárnia:
O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa? Certamente apenas
aqueles que assistiram ao filme e sabem fazer pontes entre dois eventos
aparentemente tão desconexos no tempo e no espaço.
Um dos eventos trata da realidade histórica, dominada pelo
Império Romano e rendida a um judaísmo vazio de esperanças messiânicas
de um mundo melhor, até que o filho de um marceneiro irrompe, dizendo-se
Filho de Deus, perdoando pecados, curando os enfermos e cuidando dos
famintos. O outro evento não passa de fantasia, a respeito de uma terra
estranha, de nome ainda mais estranho, dominada por uma Feiticeira
Branca, ainda mais tenebrosa. Diz-se que era sempre inverno, mas nunca
vinha a esperança de paz e harmonia do Natal. Então um misterioso leão
de nome não menos assustador, Aslam, entrega a quatro crianças armas e
ferramentas para a cura e a batalha contra as forças do mal. Que relação
pode ter uma coisa com a outra?
A páscoa diz respeito à morte absurda de um inocente no madeiro
da cruz, que traria a remissão de pecados, a restauração do
relacionamento com Deus e a vida eterna. Nárnia diz respeito a
um leão que se sacrifica para evitar o derramamento do sangue de um
humano culpado de traição. Na cruz real, o mal foi vencido, não em
batalhas sangrentas com direito aos efeitos especiais de Hollywood, mas
com um sopro de sua boca (Is 11:4); em Nárnia, os que ficaram
decepcionados com a brevidade da luta entre Aslam e a Feiticeira são os
que demoram a cair na real.
Lewis costumava dizer que as Crônicas de Nárnia não eram
“alegorias” ao Evangelho, ou seja, que cada elemento tinha um só
significado bíblico necessário. Mas admitia que elas permitiam que se
fizesse alusões aos princípios e história do cristianismo, porque ele
mesmo não tinha como e nem porque negar que estava impregnado pelos
mesmos.
Infelizmente, os crentes brasileiros, nas palavras de Caio Fábio,
costumam ver “pelo em ovo” e, com isso, jogam o bebê junto com a água do
banho, ou seja, de tão fixados que ficam no suposto “perigo” que vêem
nas figuras e imagens mitológicas, na feiticeira ou no sangue das
batalhas, perdem o essencial do filme/livro, que são os princípios
éticos, filosóficos e teológicos do cristianismo. Perdem ainda a
oportunidade sagrada e, às vezes, única, de fazer com aquele amigo,
familiar ou vizinho tenha contato com essa mesma essência.
Assim, embora Lewis não tivesse a intenção explícita de falar do
evangelho e imitar o gênero e estilo literário dos evangelistas, ele
criou Nárnia e forneceu-nos uma poderosa arma de evangelização
num mundo bem parecido com aquele dos tempos de Jesus: saturado de
igrejas e crentes, de religiosidade hipócrita e de uma sociedade
racionalista e robotizada, onde o excesso de informação já não deixa
espaço ao lúdico e à imaginação humanizadora e moralizante.
Com Nárnia, Lewis parece nos alertar: da mesma forma que
a imaginação é a porta mágica para Nárnia e para a superação de um mundo
em estado de guerra e desespero, Cristo, cujo verdadeiro resplendor e
glória só conseguimos captar pela nossa imaginação, é a porta para o
verdadeiro sentido da vida, consolo real e superação da nossa condição
miserável (Rm 7). Não é para menos que Lewis dizia que a razão e a
imaginação são como duas asas de um anjo. Enquanto uma é órgão da
verdade, a outra é o do sentido. Nenhuma das duas pode ser desprezada
para quem quer alçar altos vôos no conhecimento de Deus e na prática da
vida cristã autêntica (Cf. O Evangelho de Nárnia – Vida Nova).
Espero que os cristãos brasileiros despertem e mobilizem-se, como
todo o resto do mundo, para trabalhar as ricas e multifacetadas
mensagens de Nárnia nas escolas, lares e organizações, conforme
metodologia que proponho em meu livro A Magia das Crônicas de Nárnia
(GW Editora), já com vistas ao preparo e aproveitamento máximo do
segundo filme, que deve ser lançado em dezembro desse ano, Príncipe
Caspian.