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"A Mulher que Cobre" (trabalho de psicanálise)

Texto de   Cesar Ciancio   

                    
 


         
A mulher que cobre o rosto, o sexo, os pés, os seios. A mulher que cobre seu rosto e se curva sempre ao saber ser olhada e invadida em suas inteirezas, crente de que é culpada de alguma coisa e que alguma coisa está errada consigo mesma e com a sua aparência.
Então ela cobre seu rosto, olha para si mesma a procura do que está errado, com ela e nela.
Serão os seus seios, serão os seus defeitos, a sua celulite, a sua gordura localizada, os seus pés?
Essa é a pergunta fundamental que a mulher sempre se faz.
Onde eu errei, onde estou errada, sou feia, de que sou feita. Então cubro a minha cabeça de desonra.
Será que fui eu que comi a maçã e a dei ao meu homem, para descobrirmos o gozo e o prazer e não a sabedoria. Já que ela inclui o sexo espiritualizado. Porque errei, onde que eu errei. Fecho os meus olhos quando sou observada, e indagada dentro de mim mesma o que foi que eu fiz de errado dessa vez.
Serão meus olhos sempre pecaminosos aos olhares do homem e de Deus.
Cubro então a minha cabeça com panos, vou a igreja e rezo missas para ocultar o opróbrio de ser a causa de tanta confusão e pecados.
Mas onde que eu errei. Se Deus é gozo eterno e saúde perfeita. E participar do paraíso é isso também.
Gozo eterno e saúde eterna.
Desvio os olhares sempre, culpo a minha mãe por causa disso. Acho os olhos dos homens uma ofensa e tentação, será sempre o diabo me acusando e causando dores pelo gozo que trouxe ao mundo como doença e pecado. Penso nos meus pés que cubro para que esconda o caráter e a beleza de minha alma, talvez uma feiúra indelével que marca a minha alma como a responsável por tudo isso que está acontecendo. Desejo não o falo, e nem é o falo que me cobre.Mas é a mulher que permite que o falo a cubra.
Porque é a mulher que cobre.
O gozo é dela, ela é que se deixa seduzir e cobrir , para tirar do falo o gozo e o prazer e o desejo que ela precisa.
Não é o falo que a monta, porque ela não é nenhuma, quadrúpede que se deixa montar, qual montaria indefesa e serviçal aos desejos daquele que se intitula macho e o dominador.
Ele o falo é que é dominado, senão pelo sexo; pela fala.
Mas pela fala, pela linguagem dela que se exprime e exprime o desejo de ser coberta pelo falo e gerar outro falo , ou filha que ela conduzirá e modificará e compreenderá mais que qualquer um outro. Ainda mais porque como toda e qualquer criação nunca faz o que se deseja dela. Realiza- se, nela o motivo, da maturidade, observação, castração, e justificação Arrazoada agora como está de que, não foi ela quem falhou, mas foi a natureza.
Isto é: a sua total entrega e cobertura diante da natureza que falhou aí ela se sente quase que uma deusa em participar da compreensão,da educação, e da realização das modificações, de que precisa corrigir a natureza já que seu produto foi e é tão inautêntico, e fora de rumo como o foi a criação divina do homem.
Ela compreende isso, e chama isso de amor, porque entende que houve alguma falha na criação, na natureza e ao chamar isso de amor. Compreende mais que todos, de que esse amor cobre de zelo e respeito pelos erros e dificuldades dos seus filhos homens,e  cobre de cuidados a filha mulher . Porque sabe que ela continuará a cobrir de zelo, de amor, e de compreensão o falo, mas nem sempre. Mas ela entende,e sabe o poder que tem, diante da falha da natureza, principalmente ao criar o homem.
E cobre esse homem, de tudo aquilo, que a falta do feminino traz.
E que ao falo não compete realizar, porque ele não é o encobridor, mas a ela é permitido cobrir; isto é : realizar  o feminino em determinadas e especiais circunstâncias, escolhidas pela cobertura que a mulher faz de seus desejos, insinuações, encantos, e seduções.
A mulher que cobre, se insinua, e seduz a razão e o poder do falo. Resta ao homem o poder da fala, que ela cobre muito melhor com suas arrazoadas, múltiplas, e cornucópias de histeria e de dissimulações.
Não é ao homem tampouco ao falo a primazia do Cobrir  e do descobrir. Milhares de descobertas advieram aos homens, pela cobertura do feminino.
Isto é da alma.
A mulher que cobre; cobre com razão, o falo do masculino, pela simples razão de que ao se deixar cobrir, descobriu a irracionalidade dele.
Só aos deuses o mistério não é escondido, porque não está coberto pela aura do feminino. Coberta a cabeça em sinal de penitência, e reverência pela co-participação no mistério da criação da humanidade. Mesmo a sombra; El Shadai cobriu Maria, com a permissão dela, é claro. E nasceu-nos um homem , metade humano e metade divino.
Mesmo esse homem metade deus e metade homem. Precisou cobrir-se da senhora humanidade para poder vestir o cetro da eternidade e da igualdade divina após descobrir a realidade da alma. Que vive coberta dentro de nossas casas e dentro de nós mesmos.
Precisou Deus descobrir que a mulher que cobre.
Cobre também de realeza e espiritualidade, o falo e o homem, em seus lampejos de humanidade.
Porque falta ao homem o falo divino, coberto pela sabedoria que cobre de criação, de singularidades a pele e a intimidade desse homem.
Por isso a mulher descobriu a fala. Para adentrar dentro do homem, seus desejos mais íntimos, perpassando sua alma, com, coberturas de amor, e sedução.
Deixando-o atônito até sem entender nada do que ele pensou ou arrazoou. Porque ao falo, falta a capacidade de se cobrir, e de encontrar-se livre para criar, sua singularidade de metade homem e metade divino. Cuja participação mística nessa criação precisa de cobrir-se, de uma realidade jamais acontecida antes. Que é cobrir, a peneira do sol do falo com a realidade da fala, e da intimidade da alma.
A mulher que cobre, cobriu as hiãncias, que faltam ao homem. Deu-lhe um falo em troca, e domina seu falo pela fala e pela falta que lhe faz.
Ela nunca dá um filho ao homem, toma dele, sente falta dele, cria ele ao seu modo e semelhança. E compreende, e entende o falo do filho e a falta do falo da filha, como a mesma e única coisa.
A falta que ela lhe faz.
A falta que faz, cobrir-se.
E o cobre de carinho e de desejos, até que a morte os separe.
Donde se inventou a palavra. A não ser para cobrir a falta que faz ao falo da mulher e do Cobrir-se.
E a mulher se cobre.
Dobra-se em si mesma.
Reflete-se naquilo que a espelha.
E seu espelho nunca apresenta defeitos.
Morre, mas é inquebrantável, porque ela  o cobriu e o escondeu debaixo de seu cobertor do amor e da amizade, para que nunca se quebre o encanto de ser co-criadora da humanidade.
Porque a humanidade se cobre, por Deus. Existem os céus e as águas dos céus, e os céus e as águas da terra.
Tudo se cobre.
Dessa ninguém escapa.
A mulher sabe, e se cobre. Para tanto, o que quer a mulher?
A mulher se cobre, e cobre o que quer;
Seu filho, é o fruto da melhor cobertura, que ela pode dar a humanidade e ao seu homem.
Dessa, ninguém também escapa.
Ela domina também a palavra, e os desejos do falo e da humanidade.
Isso o homem não aprendeu ainda. Ele não cobre, ele inventa ou mata.
A alma cobre o inconsciente.
A anima cobre o self.
E a palavra cobre o superego.
E a consciência cobre a humanidade.
Portanto o feminino cobre.
O que quer a mulher ?
Cobrir-se.
O que quer o feminino?
Cobrir a humanidade.
Acho que posso parar por aqui.
Obrigado pela atenção.

 

 

Dr. Cesar Ciancio, Médico e Psicanalista - Porto Seguro/BA



Fale com Dr. Cesar:
cesareane@terra.com.br

 

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