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"Mestre"

por    Alexandre Perlingeiro

                    
 


          Uma colega minha, também professora de yoga, contou-me que ela recebeu uma mulher para iniciar sua
prática pessoal de yogásana. A aluna ficou falando o tempo todo que tinha um mestre, que esse mestre lhe tinha dado orientações, ensinado um pranayama, e por aí vai. Até que minha amiga lhe perguntou quem era o mestre. Ela não se lembrava direito do nome dele e minha amiga começou a citar uma seqüência de nomes de professores de yoga. Fulano, beltrano, cicrano... nada, até que ela citou o meu nome. Alexandre Perlingeiro, é esse! Ele é o meu mestre!, exclamou a aluna.
         Isso merece um pouco de reflexão.
          Não sou mestre dela coisíssima nenhuma! Não me lembro dela, não sei quem ela é. Às vezes indico exercícios respiratórios simples para quem me consulta, mas daí dizer que sou o mestre dela?!
          Em verdade, a meu ver, a aluna usava esse fato para ganhar importância e melhorar a auto-estima diante da nova professora - o que é um indicativo de desequilíbrio do Manipura Chakra. Ter um mestre dá status e nos distingue dos outros mortais que não tem um mestre.
          O que? Você não tem um mestre?! Tsc, tsc, tsc... Será que há salvação para você? Eu sou melhor do que você porque eu tenho um mestre! Pois eu tenho dois mestres! E eu tenho muitos mestres! O meu mestre é mais poderoso que o teu! Não, o meu mestre é o mais poderoso de todos!
          Quem deles será o mais poderoso?
          Vejam que a questão não é a relação guru-discípulo - que, por sinal, considero bastante especial e auspiciosa. O problema está em querer se esconder atrás dessa máscara - que, aliás, não é a máscara de discípulo. Ela não é um discípulo, ela é aquela que tem um mestre!          
          O vínculo que une mestre a discípulo é um vínculo de coração e, na maioria das vezes, não necessita
ser divulgado a não ser com propósitos bem específicos. Não tenho um mestre para me vangloriar perante os outros. Ter um mestre não me torna melhor nem pior do que ninguém. Apenas estou buscando, estou atrás de respostas para os meus questionamentos mais profundos e essa pessoa está me guiando.
O mestre é um veículo para se obter paz de espírito e equilíbrio da personalidade. Inclusive, chegará o dia em que até mesmo do mestre terei que abrir mão.
          É um processo/relação muito íntimo e pessoal.
          Devia haver uma lei para se proibir tais desatinos, algo como: não pronunciarás em vão o nome do mestre.
          Eu entendo... é também uma maneira de não se ter responsabilidades, de continuar infantilizado. Tudo
o que faço ou deixo de fazer é por causa do mestre, ele é o responsável pro mim (e pelos meus desatinos, diga-se de passagem). Ele é o meu tutor.
          Pobre coitado do mestre, quanta responsabilidade jogada em cima dos seus ombros!
          Por outro lado, é assim que deve ser. As crianças devem projetar poder nos pais/mestres até que se tornem adultas e responsáveis por si próprias. Faz parte do processo de amadurecimento essa projeção. Acho que não foi o caso dessa mulher não. Intuo que seja neurose mesmo, medo de se entregar na sua prática e na relação com sua verdadeira professora, essa sim, sua mestra.
          Podemos refletir também sobre essa palavra, mestre (guru). Em um contexto restrito, mestre é aquele que nos ensina algo. O professor é nosso mestre. Seja de matemática, música ou natação, ele nos transmite aquele conhecimento e nos habilita naquele determinado assunto. Há também os mestres que concluíram o mestrado. Há aqueles que são chamados de mestres pela grande experiência e habilidade que adquiriram no assunto. Um mestre sapateiro, por exemplo. Ninguém faz ou conserta sapatos como ele. E, por fim, há os mestres realizados, aqueles que, ensinando sobre o Absoluto, já vivenciam o que pregam.
          Mas há também o mestre eleito pelo discípulo. Não estando em nenhuma das categorias acima, simplesmente foram escolhidos pelos praticantes que consideram que ele tem algo para lhes dar.
          Não sei em qual categoria ela me incluiu. Ainda considero que fui usado como escudo protetor, como mecanismo de defesa.
          Enfim, agradeço a ela por toda essa reflexão. Talvez ela seja minha mestra.

Com carinho,
Alexandre Perlingeiro

PS.
De qq modo, tenho que passar a tomar mais cuidado com o que digo. As pessoas estão começando a me levar muito a sério.


Alexandre Perlingeiro - Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga.
Formado pela Associação Brasileira de Professores de Yoga, com especialização em Dakshina Tantra com Paulo Murilo Rosas.
Formação em Recuperação Motora e Terapia pela Dança-Escola Angel Viana. Massoterapeuta e Shiatsuterapeuta. Arteterapeuta e Arte-Educador (Tear-RJ). Terapeuta Reikiano nível I e II.

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Fale com Alexandre:
alexandre.perlingeiro@tantrayoga.pro.br

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