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"Medo e Ansiedade na Criança" por Charles Alberto Resende |
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A psicologia analítica não se volta em grau elevado para a questão da infância, nem se preocupa em delimitar uma faixa etária para os seus diferentes desenvolvimentos. Desta forma, ao se falar aqui do desenvolvimento da consciência e seus problemas, e de casos abordando o desenvolvimento de adultos ou crianças, sugere-se uma visão que implica grande investimento emocional na forma de medo e ansiedade presentes mesmo em tenra idade. Essas possibilidades de analogia devem-se mais à semelhança do mecanismo psíquico subjacente à diferença das idades (JUNG, 1998, p. 18). JUNG (1998, p. 150) aborda a psicologia da infância comparando-a com a psicologia do primitivo, uma vez que contêm similaridades discrepantes. Para ele, assim como as várias fases de desenvolvimento físico porque o feto passa refletem os estágios evolutivos da raça humana, passando pelo desenvolvimento animal, também a psique passa por um processo semelhante, ao nível psíquico. Assim, certas tribos apresentam a crença de que o homem possui várias almas. Isso reflete o fato de que a psique do indivíduo não é una e indivisível, mas pode fragmentar-se facilmente frente a fortes emoções, alterando nosso senso de identidade ou provocando a sua perda. O homem moderno, apesar do alto nível civilizacional alcançado ainda carece de um grau moderado de continuidade. O misoneísmo, medo do que é novo e desconhecido, próprio da psicologia dos primitivos, ainda exerce grande papel nesse contexto (JUNG, 2005, p. 24). Se assim o é para o homem contemporâneo, como não o será para a criança portadora de uma consciência primária e mais fragmentável? Na descoberta do inconsciente, sua autonomia exerce um grande papel. Para o primitivo, acrescente-se aqui as crianças em geral, é fácil atribuir vários acontecimentos desagradáveis em sua psique, projetados no meio ambiente ou realizados inconscientemente, a espíritos malignos. Portanto, deve-se atentar sempre para qual simbolismo aponta a psique infantil nas diferentes manifestações de emoções de medo e ansiedade.
O desenvolvimento da consciência, que ocorre pelo agrupamento
continuado de conteúdos
conscientes dispersos, se dá do nascimento até o final da puberdade. A
consciência emerge do inconsciente
"como uma nova ilha aflora sobre a superfície do mar" (JUNG,
1998, p. 56).
A título de exemplo, cita-se a seguir um fato ilustrativo dessa
dependência anímica:
Em um outro caso, JUNG (1998, p. 57) chega a analisar o problema
erótico e religioso de um pai, que
não se lembrava de seus sonhos, através dos sonhos arquetípicos do
filho, decorrentes do simbolismo
mitológico, contido no inconsciente coletivo da humanidade. Tais sonhos
não são comuns ou apropriados,
exceto na meia idade, com as preocupações espirituais que se origina
da aproximação do final da vida.
Daí Jung concluir que sua presença em crianças apontava problemas
parentais ou até a aproximação da morte,
como no caso de uma criança de 10 anos que dera de presente
de Natal ao pai, um psiquiatra, um pequeno
caderno contendo uma fantástica série de
sonhos (JUNG, 2005, p. 69). As imagens e o conteúdo
sobrenatural dos sonhos eram completamente
incompreensíveis ao pai. O fundador
da psicologia analítica conseguiu relacionar
dois deles com motivos bíblicos.
Um outro caso que demonstra o papel e a origem dos medos e da ansiedade
infantis é o de uma mãe
neurótica: O tratamento adequado nesses casos é o relato e a conexão dos conteúdos das lembranças ou o simples afastamento dos obstáculos, que pode ser conseguido com a análise dos pais. Para JUNG (2005, p. 165) os primeiros sonhos infantis evidenciam normalmente a estrutura básica da psique, traçando em linhas gerais o destino do indivíduo. A mesma função também tem aqueles fatos que para o adulto são insignificantes, mas que as crianças lembram vividamente. Quando interpretados como símbolos acabam revelando problemas na constituição psíquica infantil. "Jung contou uma vez a um grupo de estudantes o caso de uma jovem mulher tão obcecada por sua angústia que suicidou-se aos 26 anos. Quando criança ela sonhara que "Jack Frost'' (o homem da neve) entrara em seu quarto enquanto ela estava deitada, e lhe beliscara o estômago. Acordara e descobrira que ela mesma se beliscara, com a própria mão. O sonho não a assustou; apenas lembrava-se dele. Mas o fato de este seu estranho encontro com o demônio do frio — da vida congelada — não lhe ter provocado nenhuma reação emocional não pressagiava nada de bom para o seu futuro e era, em si mesmo, uma anomalia. Foi com esta mesma frieza e insensibilidade que, mais tarde, pôs fim à vida. Deste único sonho é possível deduzir o destino trágico de quem o sonhou, já antecipado na infância por sua psique." (JUNG, 2005, p. 165) Pode-se concluir de fatos como este que o medo de figuras grotescas ou monstruosas pressentidas durante a noite ou reveladas em sonhos podem indicar problemas psíquicos pressentidos pela criança no ambiente parental. Porém, uma reação inusitada a esses símbolos esboça problemas de gravidade maior no futuro, constituindo-se até obstáculos à continuidade da própria vida. Quando o desenvolvimento natural da consciência é seriamente perturbado, a criança costuma produzir em seus sonhos e desenhos figuras circulares, quadrangulares ou nucleares. Essas imagens visam estabilizar a consciência, unificando os seus diversos fragmentos simbolizados por essas representações. Com isso, naturalmente, a criança dispõe de um mecanismo psíquico estabilizador instintivo, o que não a dispensa de um tratamento psicoterápico apropriado.
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| Charles
Alberto Resende, 37 anos, militar do Exército, Curso de Pedagogia
Incompleto, Comandante do Tiro-de-Guerra 04-013 (Patos de Minas-MG),
estudioso da obra de Carl Gustav Jung e dos sonhos. |
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