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"A Ética do Pode Tudo"

por    Alexandre Perlingeiro

                    

 

          A seguinte cena me foi relatada: uma mulher grávida passava por uma calçada estreita quando, em sentido contrário, também na calçada, vinha um triciclo (desses que os supermercados utilizam para fazer entregas).
          Já que o triciclo ocupava toda a calçada, pararam ambos, triciclo e grávida, um esperando que o outro desviasse. Criado o impasse, ficaram os dois na expectativa de que o outro cedesse. Passado algum tempo, meio a contragosto, a grávida cedeu a passagem para o entregador.
          Algumas pessoas próximas que presenciaram a cena começaram a reclamar com o homem: 'você não pode fazer isso! É um absurdo, uma falta de respeito!' Ao que o entregador pronta e tranqüilamente respondeu: 'pode tudo!' E continuou pedalando sorridente.
          Vivemos em uma cultura de liberdades excessivas, ou melhor, de experimentação dos limites de nossa liberdade. Talvez seja um movimento natural depois do regime militar... Até onde eu vou? Até onde posso ir?
          O fato é que pensamos que podemos tudo. É a onipotência do jeitinho, o pode tudo do Gerson.
          Esse talvez seja um lado perverso de nossa tão bem falada índole pacífica e acolhedora.
          Não podemos tudo. O nosso poder está limitado ao poder do outro que esbarra, confronta e delimita o nosso. Não podemos querer superá-lo (ao outro) agindo como se não existisse.
         É claro que, devemos destacar, a concretização do poder se dá de maneira relacional, na medida que, ao atuar, atuo sobre o outro, ao avançar, avanço até que algo ou alguém me impeça. Pare, a partir daqui você não pode mais avançar. Se há o que extrapola, há o que deixa ser extrapolado. Se há o que corrompe, há o que se deixa ser corrompido. Se há o que avança, há o que cede passagem ou o que lhe barra o passo. Não foi nem o caso relatado, pois a grávida até que esboçou uma contrariedade e as pessoas próximas se indignaram. Mas, freqüentemente estamos com pressa ou optamos por fugir das confusões e dos escândalos.
          É bem verdade também que aquele entregador colherá o que está plantando. Esta é uma lei válida para todos. Causa e efeito. O que fazemos retorna para nós.
          Por outro lado, muitos sábios pregam uma atitude de aceitação ou ao menos de não-violência. Por exemplo, Jesus ('oferece a outra face quando fores agredidos') ou o Dalai Lama.
          Não estou aqui fazendo a apologia do bateu-levou, ou atos de violência ou desobediência civil. Há que se buscar agir com sabedoria e sensatez (até certo ponto pois, muitas vezes, a melhor solução é a insensatez). Muitas vezes o mais sábio mesmo seja recuar. É comum em discussões de trânsito os envolvidos, por estarem de cabeça quente, acabarem brigando (muitas vezes até mesmo com o uso de arma de fogo) simplesmente porque todos se acham no direito.
          Temos que ter clareza que não podemos tudo.
          Em termos de cuidado com a fala há que ser comedido. 'Quem fala o que quer, ouve o que não quer.' Pessoalmente tenho praticado os 'portais da fala' utilizados na Meditação Siddha Yoga. A fala é verdadeira, gentil, benéfica e oportuna? A fala deve atender a esses quatro critérios para ser ética.
          Quanto às ações, sigo o escritor Isaac Asimov, que inventou as três leis da robótica (vejam o filme 'Eu, robô'):
1a Lei - Não prejudicarás nenhum ser humano;
2a Lei - Ajudarás os seres humanos o máximo possível (desde que não seja violando a primeira lei); e
3a Lei - conservarás tua própria existência (sempre que não seja à custa de violar as duas leis anteriores).
          Muitos podem inverter a ordem das leis, priorizando a última, mas, ainda assim, elas continuam válidas.
          E, é claro, tem o ensinamento de Jesus Cristo, 'ama o teu próximo como a ti mesmo'.
          Enfim, é importante termos consciência - e responsabilidade - pelos nossos atos, para não sairmos dizendo por aí que pode tudo, porque não pode. Ou melhor, poder, até pode (somos livres para optar), mas devemos - e vamos - arcar com as conseqüências dessas escolhas. Se a mulher grávida estivesse acompanhada por seu marido, será que a história teria sido a mesma? E o que faria o entregador se fosse a sua mulher que estivesse nessa situação?

Com amor e respeito,
Alexandre Perlingeiro

PS.
Há também aquele outro ensinamento que também é válido nessa reflexão: 'não julgues para não serdes julgados', ou 'quem não tiver pecados que atire a primeira pedra'.


Alexandre Perlingeiro - Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga.
Formado pela Associação Brasileira de Professores de Yoga, com especialização em Dakshina Tantra com Paulo Murilo Rosas.
Formação em Recuperação Motora e Terapia pela Dança-Escola Angel Viana. Massoterapeuta e Shiatsuterapeuta. Arteterapeuta e Arte-Educador (Tear-RJ). Terapeuta Reikiano nível I e II.

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alexandre.perlingeiro@tantrayoga.pro.br

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