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A seguinte cena me foi relatada: uma mulher grávida passava por uma calçada
estreita quando, em sentido contrário, também na calçada, vinha um
triciclo (desses que os supermercados utilizam para fazer entregas).
Já que o
triciclo ocupava toda a calçada, pararam ambos, triciclo e grávida, um
esperando que o outro desviasse. Criado o impasse, ficaram os dois na
expectativa de que o outro cedesse. Passado algum tempo, meio a
contragosto, a grávida cedeu a passagem para o entregador.
Algumas pessoas
próximas que presenciaram a cena começaram a reclamar com o homem: 'você
não pode fazer isso! É um absurdo, uma falta de respeito!' Ao que o
entregador pronta e tranqüilamente respondeu: 'pode tudo!' E continuou
pedalando sorridente.
Vivemos em uma
cultura de liberdades excessivas, ou melhor, de experimentação dos
limites de nossa liberdade. Talvez seja um movimento natural depois do
regime militar... Até onde eu vou? Até onde posso ir?
O fato é que
pensamos que podemos tudo. É a onipotência do jeitinho, o pode tudo do
Gerson.
Esse talvez seja
um lado perverso de nossa tão bem falada índole pacífica e acolhedora.
Não podemos tudo.
O nosso poder está limitado ao poder do outro que esbarra, confronta e
delimita o nosso. Não podemos querer superá-lo (ao outro) agindo como
se não existisse.
É claro que, devemos
destacar, a concretização do poder se dá de maneira relacional, na
medida que, ao atuar, atuo sobre o outro, ao avançar, avanço até que
algo ou alguém me impeça. Pare, a partir daqui você não pode mais
avançar. Se há o que extrapola, há o que deixa ser extrapolado. Se há
o que corrompe, há o que se deixa ser corrompido. Se há o que avança,
há o que cede passagem ou o que lhe barra o passo. Não foi nem o caso
relatado, pois a grávida até que esboçou uma contrariedade e as
pessoas próximas se indignaram. Mas, freqüentemente estamos com pressa
ou optamos por fugir das confusões e dos escândalos.
É bem verdade
também que aquele entregador colherá o que está plantando. Esta é
uma lei válida para todos. Causa e efeito. O que fazemos retorna para nós.
Por outro lado,
muitos sábios pregam uma atitude de aceitação ou ao menos de não-violência.
Por exemplo, Jesus ('oferece a outra face quando fores agredidos') ou o
Dalai Lama.
Não estou aqui
fazendo a apologia do bateu-levou, ou atos de violência ou desobediência
civil. Há que se buscar agir com sabedoria e sensatez (até certo ponto
pois, muitas vezes, a melhor solução é a insensatez). Muitas vezes o
mais sábio mesmo seja recuar. É comum em discussões de trânsito os
envolvidos, por estarem de cabeça quente, acabarem brigando (muitas
vezes até mesmo com o uso de arma de fogo) simplesmente porque todos se
acham no direito.
Temos que ter
clareza que não podemos tudo.
Em termos de
cuidado com a fala há que ser comedido. 'Quem fala o que quer, ouve o
que não quer.' Pessoalmente tenho praticado os 'portais da fala'
utilizados na Meditação Siddha Yoga. A fala é verdadeira, gentil, benéfica
e oportuna? A fala deve atender a esses quatro critérios para ser ética.
Quanto às ações,
sigo o escritor Isaac Asimov, que inventou as três leis da robótica (vejam
o filme 'Eu, robô'):
1a Lei - Não prejudicarás nenhum ser humano;
2a Lei - Ajudarás os seres humanos o máximo possível (desde que não
seja violando a primeira lei); e
3a Lei - conservarás tua própria existência (sempre que não seja à
custa de violar as duas leis anteriores).
Muitos podem
inverter a ordem das leis, priorizando a última, mas, ainda assim, elas
continuam válidas.
E, é claro, tem
o ensinamento de Jesus Cristo, 'ama o teu próximo como a ti mesmo'.
Enfim, é
importante termos consciência - e responsabilidade - pelos nossos atos,
para não sairmos dizendo por aí que pode tudo, porque não pode. Ou
melhor, poder, até pode (somos livres para optar), mas devemos - e
vamos - arcar com as conseqüências dessas escolhas. Se a mulher grávida
estivesse acompanhada por seu marido, será que a história teria sido a
mesma? E o que faria o entregador se fosse a sua mulher que estivesse
nessa situação?
Com amor e respeito,
Alexandre Perlingeiro
PS.
Há também aquele outro ensinamento que também é válido nessa reflexão:
'não julgues para não serdes julgados', ou 'quem não tiver pecados
que atire a primeira pedra'.
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