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"Consciência"

por    Alexandre Perlingeiro

                    

 

          Gostaria de refletir aqui sobre o que significa a consciência, uma palavra bastante empregada tanto pelas religiões, caminhos espirituais e pelas ciências (Física Quântica e Medicina, por exemplo).
          O dicionário de português[1] apresenta os seguintes significados sobre este termo: sentimento ou percepção do que se passa em nós; voz secreta da alma aprovando ou reprovando as nossas ações; sinceridade; conhecimento; retidão; justiça; cuidado extremo com que se executa um trabalho.
          Podemos agrupá-los em quatro significados básicos:
1) sentimento ou percepção de si ou do outro;
2) juízo moral;
3) ética; e
4) zelo.
          Estes significados todos também estão presentes na tradição hindu. No entanto, em Vedanta se diz que um dos três atributos de Deus é consciência, cit (os outros dois são existência, sat, e felicidade, ananda).
          Gostaria de fazer aqui uma ligação da consciência enquanto sentimento ou percepção do mundo com cit, a consciência de Deus.
          É possível expandirmos o sentimento/percepção do mundo até que se torne a consciência de Deus? Sim, esse é o objetivo da sádhana, ampliar o nosso nível de consciência. Do ponto de vista do limitado percebo o não-eu. Do ponto de vista do Absoluto, não existindo separação entre eu e não-eu, o Ser se conhece a si próprio.
          Nesse contexto faz sentido se falar em auto-consciência, não uma tomada de consciência que exclua o outro, pelo contrário. Consciência como compaixão.
          E aqui precisamos fazer uma pausa para destacar: a Unidade não pode ser expressa pela linguagem a não ser enquanto dualidade (o absoluto só é absoluto na relação com o não-absoluto). Ou seja, para se ver com os olhos de Deus só a experiência mística. Esse é de fato o nosso grande anseio, fundir-se com o Absoluto.
          Muitos pensadores propõem que a experiência mística só acontece por causa da Graça, o que implica dizer que nada podemos fazer para enxergar com os olhos de Deus. Quanto Ele quiser, você verá, ou melhor, Ele verá através dos seus olhos.
          No entanto, mesmo concordando com esta afirmação, para vocês posso dizer: a experiência mística, a união com o Absoluto, o nirvana, a liberação é possível e vocês têm uma parcela de responsabilidade nesse processo. É a sádhana, o conjunto de disciplinas que vocês necessitam se engajar para percorrer esse caminho.
          Não há contradição. Para vocês que possuem este interesse, que possuem estes questionamentos, a sádhana é necessária. NO entanto, por que será que uns se questionam sobre isso e outros não? Foi Deus, foi a Graça de Deus que quis assim. Então, assim sendo, tendo sido desperto o anseio pela liberação, para esse (seleto) grupo, para esses escolhidos, o engajamento se faz necessário.
          Como diz a Bíblia, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos. Resta perceber que é o Ser chamando a si próprio para tomar consciência de si.
          Então, voltando à questão inicial, como fazer a ligação da consciência do mundo com a consciência de Deus?
          A compaixão é uma ferramenta poderosa, ela dissolve as paredes que separam eu e não-eu. Ela é utilizada principalmente no Budismo Tibetano. No Zen fala-se da atenção plena. Na consciência do aqui e agora encontramos o Absoluto. Para os cristãos, o Cristo é o caminho, a Verdade e a Vida. Yoga significa união. Busca-se unir (ou dissolver) o limitado no ilimitado, o jiva (ego) em Atman, o Absoluto. No Tantra Yoga será a energização de todos os chakras ao nível da raiz, ou seja, com a passagem da energia pela Sushumna Nadi que permitirá a tomada de consciência da Unidade.
           Mencionei alguns caminhos, algumas possibilidades de se encontrar Deus. Há também  o Sufismo, o Taoísmo, Islamismo, Xamanismo, etc. De agora em diante não faz mais sentido dissertar sobre. É necessário falar por experiência própria e desta maneira contagiar (o sentido e a beleza do discurso serão reconhecidos por ressonância).
          Não se pode consumir Deus - embora muitos o tentem, buscando transformar os templos (nosso corpo aí incluso) em lojas, o anseio divino em objeto de consumo e em fonte de lucro.
          É preciso o engajamento, é preciso a sádhana. É preciso viver. É preciso ser. Ser Deus. Ver com os olhos de Deus.
          Escolham seus caminhos - seja ele qual for! Escolham e mergulhem!
          Boa jornada!

Com amor e respeito,
Alexandre Perlingeiro


[1] Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, de Francisco Silveira Bueno,
FENAME, 10a edição, 1976.

[2] Aqui no Ocidente o filósofo que mais se aproximou desta idéia foi Arthur
Schopenhauer que propôs a Ética da Compaixão.

Alexandre Perlingeiro - Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga.
Formado pela Associação Brasileira de Professores de Yoga, com especialização em Dakshina Tantra com Paulo Murilo Rosas.
Formação em Recuperação Motora e Terapia pela Dança-Escola Angel Viana. Massoterapeuta e Shiatsuterapeuta. Arteterapeuta e Arte-Educador (Tear-RJ). Terapeuta Reikiano nível I e II.

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alexandre.perlingeiro@tantrayoga.pro.br

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