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Gostaria de refletir aqui sobre o que significa a consciência,
uma palavra bastante empregada tanto pelas
religiões, caminhos espirituais e pelas
ciências (Física Quântica e Medicina, por exemplo).
O dicionário de português[1] apresenta os seguintes significados
sobre este termo: sentimento ou percepção do
que se passa em nós; voz secreta da alma
aprovando ou reprovando as nossas ações; sinceridade; conhecimento;
retidão; justiça; cuidado extremo com que se
executa um trabalho.
Podemos agrupá-los em quatro significados básicos:
1) sentimento ou percepção de si ou do outro;
2) juízo moral;
3) ética; e
4) zelo.
Estes significados todos também estão presentes na tradição hindu.
No entanto, em Vedanta se diz que um dos três
atributos de Deus é consciência, cit (os
outros dois são existência, sat, e felicidade, ananda).
Gostaria de fazer aqui uma ligação da consciência enquanto
sentimento ou percepção do mundo com cit, a
consciência de Deus.
É possível expandirmos o sentimento/percepção do mundo até que se
torne a consciência de Deus? Sim, esse é o
objetivo da sádhana, ampliar o nosso nível de
consciência. Do ponto de vista do limitado percebo o não-eu. Do
ponto de vista do Absoluto, não existindo separação entre eu e
não-eu, o Ser se conhece a si próprio.
Nesse contexto faz sentido se falar em auto-consciência, não uma
tomada de consciência que exclua o outro, pelo
contrário. Consciência como compaixão.
E aqui precisamos fazer uma pausa para destacar: a Unidade não
pode ser expressa pela linguagem a não ser
enquanto dualidade (o absoluto só é absoluto
na relação com o não-absoluto). Ou seja, para se ver com os olhos
de Deus só a experiência mística. Esse é de fato o nosso grande
anseio, fundir-se com o Absoluto.
Muitos pensadores propõem que a experiência mística só acontece
por causa da Graça, o que implica dizer que
nada podemos fazer para enxergar com os olhos
de Deus. Quanto Ele quiser, você verá, ou melhor, Ele verá através dos
seus olhos.
No entanto, mesmo concordando com esta afirmação, para vocês
posso dizer: a experiência mística, a união
com o Absoluto, o nirvana, a liberação é
possível e vocês têm uma parcela de responsabilidade nesse processo. É a
sádhana, o conjunto de disciplinas que vocês necessitam se
engajar para percorrer esse caminho.
Não há contradição. Para vocês que possuem este interesse, que
possuem estes questionamentos, a sádhana é
necessária. NO entanto, por que será que uns se
questionam sobre isso e outros não? Foi Deus, foi a Graça de Deus
que quis assim. Então, assim sendo, tendo sido
desperto o anseio pela liberação, para esse (seleto)
grupo, para esses escolhidos, o engajamento se
faz necessário.
Como diz a Bíblia, muitos são os chamados, mas poucos os
escolhidos. Resta perceber que é o Ser
chamando a si próprio para tomar consciência de si.
Então, voltando à questão inicial, como fazer a ligação da
consciência do mundo com a consciência de
Deus?
A compaixão é uma ferramenta poderosa, ela dissolve as paredes
que separam eu e não-eu. Ela é utilizada
principalmente no Budismo Tibetano. No Zen
fala-se da atenção plena. Na consciência do aqui e agora encontramos o
Absoluto. Para os cristãos, o Cristo é o caminho, a Verdade e a
Vida. Yoga significa união. Busca-se unir (ou
dissolver) o limitado no ilimitado, o jiva
(ego) em Atman, o Absoluto. No Tantra Yoga será a energização de todos
os chakras ao nível da raiz, ou seja, com a passagem da energia
pela Sushumna Nadi que permitirá a tomada de
consciência da Unidade.
Mencionei alguns caminhos, algumas possibilidades de se encontrar
Deus. Há também o Sufismo, o Taoísmo,
Islamismo, Xamanismo, etc. De agora em diante
não faz mais sentido dissertar sobre. É necessário falar por experiência
própria e desta maneira contagiar (o sentido e a beleza do
discurso serão reconhecidos por ressonância).
Não se pode consumir Deus - embora muitos o tentem, buscando
transformar os templos (nosso corpo aí incluso)
em lojas, o anseio divino em objeto de consumo
e em fonte de lucro.
É preciso o engajamento, é preciso a sádhana. É preciso viver. É
preciso ser. Ser Deus. Ver com os olhos de
Deus.
Escolham seus caminhos - seja ele qual for! Escolham e mergulhem!
Boa jornada!
Com amor e respeito,
Alexandre Perlingeiro
[1] Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, de Francisco Silveira Bueno,
FENAME, 10a edição, 1976.
[2] Aqui no Ocidente o filósofo que mais se aproximou desta idéia foi
Arthur
Schopenhauer que propôs a Ética da Compaixão.
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