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Tenho
uma amiga que gosta de mim e por quem também tenho um carinho especial.
Ela está sempre fazendo propaganda do meu trabalho. Realmente já
recebi alguns alunos vindos por intermédio dela. No entanto, todos eles,
absolutamente todos eles não chegaram a completar dois meses de aula.
Ou acabava o dinheiro ou ficavam com problema de horário ou um parente
que adoecia ou simplesmente sumiam... Impressionante!
Fico me
perguntando o porquê disso. Acredito sinceramente no bem querer dela
por mim, mas alguma coisa está distorcendo as suas ações. Não
estamos em sintonia.
Ela tem uma
característica peculiar: gosta de ajudar aos outros, mas não consegue
fazer o mesmo consigo própria. Para os outros, tudo, para ela, nada.
Ela se trata com muita rigidez.
Tenho cá comigo
que, enquanto ela não resolver essa questão de baixa auto-estima,
todos os convites que fizer para alguém vir fazer yoga serão mal-sucedidos.
Todos que são convidados estão na consciência da falta, da carência,
do precisam receber - e estão apegados a isto. Quando começamos o
trabalho e essa maneira de pensar começa a ser transformada, eles
resistem e interrompem o processo. Não adianta, para começar um
trabalho de auto-transformação é preciso a pessoa estar firmemente
decidida, querer com afinco, ao ponto quase do desespero. Somente então
ela conseguirá superar os obstáculos inerentes ao autoconhecimento.
Minha amiga está
bem intencionada, quer ser generosa. Por sinal, ela é generosa - com os
outros somente. Esse é o problema. Precisa perceber que ela também é
merecedora de receber. Mais ainda, que, enquanto permanecer nesta consciência,
suas ações serão desprovidas de força. É como dar uma esmola e o
mendigo pegar o dinheiro e comprar cachaça. De que adiantou a esmola? Só
reforçou o vício. No entanto, a pessoa fica com a consciência tranqüila,
está pensando que ganhou alguns pontos para entrar no reino dos céus.
Ela anseia merecer o paraíso. Mas como pode isso se o seu coração está
repleto de tristeza, mágoa e carência?
Como fazer
caridade se nos sentimos carentes? É bem verdade que São Francisco de
Assis já pregava o 'é dando que se recebe'. Acredito que alguma
transformação ocorra quando doamos o dízimo, por exemplo. No entanto,
somente um coração pleno, generoso, é capaz de doar verdadeiramente,
incondicionalmente. De outra maneira, estaremos sempre querendo algo em
troca, nem que seja uma migalha de afeto.
Não estou
criticando de maneira nenhuma os atos caritativos. Eles têm sua função.
Só ressalto a importância de que eles surjam a partir de um coração
generoso.
A generosidade,
sim, é capaz de transformar verdadeiramente as pessoas.
E como saber?
Como distinguir se estamos doando a partir da carência ou da plenitude?
É simples, podemos usar dois critérios:
1) Se a doação for totalmente incondicional, se eu não esperar nada,
absolutamente nada em troca; e
2) Se eu conseguir ser caridoso igualmente com os outros e comigo próprio.
Conheci uma
mulher que dizia ser muito generosa com sua empregada. Ela me contou
certa vez que acolhia a empregada em sua casa, que lhe permitia estudar
à noite, e que, por causa disso, não assinava a carteira de trabalho.
Como ela era generosa! Não estranharei se a encontrar algum dia
praguejando contra a empregada mal-agradecida, após essa ingrata ter
entrado na justiça reclamando todos os seus direitos.
Geralmente os
caridosos tipo 1 vão sempre acabar por se sentir injustiçados. Já os
do tipo 2 fazem tudo por culpa. Estão expiando seus pecados e por causa
disso precisam fazer o bem. Geralmente tenderão a dar além da medida,
em exagero, já que estarão sempre em falta. A vida é uma grande prisão
e estamos aqui para cumprir nossa pena.
Em verdade, ninguém
é obrigado a ser generoso. Generosidade é algo que flui
espontaneamente de um coração pleno. É conseqüência natural.
Que possamos
estar atentos aos nossos corações. Se o observarmos de fato, abundância
é o que encontraremos.
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