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"Caridade Carente"

por    Alexandre Perlingeiro

                    
 


          Tenho uma amiga que gosta de mim e por quem também tenho um carinho especial. Ela está sempre fazendo propaganda do meu trabalho. Realmente já recebi alguns alunos vindos por intermédio dela. No entanto, todos eles, absolutamente todos eles não chegaram a completar dois meses de aula. Ou acabava o dinheiro ou ficavam com problema de horário ou um parente que adoecia ou simplesmente sumiam... Impressionante!
          Fico me perguntando o porquê disso. Acredito sinceramente no bem querer dela por mim, mas alguma coisa está distorcendo as suas ações. Não estamos em sintonia.
          Ela tem uma característica peculiar: gosta de ajudar aos outros, mas não consegue fazer o mesmo consigo própria. Para os outros, tudo, para ela, nada. Ela se trata com muita rigidez.
          Tenho cá comigo que, enquanto ela não resolver essa questão de baixa auto-estima, todos os convites que fizer para alguém vir fazer yoga serão mal-sucedidos. Todos que são convidados estão na consciência da falta, da carência, do precisam receber - e estão apegados a isto. Quando começamos o trabalho e essa maneira de pensar começa a ser transformada, eles resistem e interrompem o processo. Não adianta, para começar um trabalho de auto-transformação é preciso a pessoa estar firmemente decidida, querer com afinco, ao ponto quase do desespero. Somente então ela conseguirá superar os obstáculos inerentes ao autoconhecimento.
          Minha amiga está bem intencionada, quer ser generosa. Por sinal, ela é generosa - com os outros somente. Esse é o problema. Precisa perceber que ela também é merecedora de receber. Mais ainda, que, enquanto permanecer nesta consciência, suas ações serão desprovidas de força. É como dar uma esmola e o mendigo pegar o dinheiro e comprar cachaça. De que adiantou a esmola? Só reforçou o vício. No entanto, a pessoa fica com a consciência tranqüila, está pensando que ganhou alguns pontos para entrar no reino dos céus. Ela anseia merecer o paraíso. Mas como pode isso se o seu coração está repleto de tristeza, mágoa e carência?
          Como fazer caridade se nos sentimos carentes? É bem verdade que São Francisco de Assis já pregava o 'é dando que se recebe'. Acredito que alguma transformação ocorra quando doamos o dízimo, por exemplo. No entanto, somente um coração pleno, generoso, é capaz de doar verdadeiramente, incondicionalmente. De outra maneira, estaremos sempre querendo algo em troca, nem que seja uma migalha de afeto.
          Não estou criticando de maneira nenhuma os atos caritativos. Eles têm sua função. Só ressalto a importância de que eles surjam a partir de um coração generoso.
          A generosidade, sim, é capaz de transformar verdadeiramente as pessoas.
          E como saber? Como distinguir se estamos doando a partir da carência ou da plenitude? É simples, podemos usar dois critérios:

1) Se a doação for totalmente incondicional, se eu não esperar nada, absolutamente nada em troca; e
2) Se eu conseguir ser caridoso igualmente com os outros e comigo próprio.

          Conheci uma mulher que dizia ser muito generosa com sua empregada. Ela me contou certa vez que acolhia a empregada em sua casa, que lhe permitia estudar à noite, e que, por causa disso, não assinava a carteira de trabalho. Como ela era generosa! Não estranharei se a encontrar algum dia praguejando contra a empregada mal-agradecida, após essa ingrata ter entrado na justiça reclamando todos os seus direitos.
          Geralmente os caridosos tipo 1 vão sempre acabar por se sentir injustiçados. Já os do tipo 2 fazem tudo por culpa. Estão expiando seus pecados e por causa disso precisam fazer o bem. Geralmente tenderão a dar além da medida, em exagero, já que estarão sempre em falta. A vida é uma grande prisão e estamos aqui para cumprir nossa pena.
          Em verdade, ninguém é obrigado a ser generoso. Generosidade é algo que flui espontaneamente de um coração pleno. É conseqüência natural.
          Que possamos estar atentos aos nossos corações. Se o observarmos de fato, abundância é o que encontraremos.


Alexandre Perlingeiro - Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga.
Formado pela Associação Brasileira de Professores de Yoga, com especialização em Dakshina Tantra com Paulo Murilo Rosas.
Formação em Recuperação Motora e Terapia pela Dança-Escola Angel Viana. Massoterapeuta e Shiatsuterapeuta. Arteterapeuta e Arte-Educador (Tear-RJ). Terapeuta Reikiano nível I e II.

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alexandre.perlingeiro@tantrayoga.pro.br

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