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Uma abelha é um ser pequeno, frágil e que vive por pouquíssimo
tempo. Sua rotina diária é procurar flores com pólen, trazê-lo à colméia,
alimentar as crias, defender sua casa, procurar mais flores... Trabalho,
trabalho, trabalho... Nada muda com o passar dos dias.
É terça-feira, 23 de dezembro. Amanhã faremos a distribuição
anual de brinquedos para crianças que, ao longo do ano, muito pouco tem
com que brincar. Seu dia a dia normalmente é uma sobrevivência. Não dos
seus corpinhos subnutridos, mas, em última análise, de suas pequenas
almas carentes de carinho, amor. Ao longo do dia estudam, trabalham,
cuidam dos irmãozinhos.
Algumas vezes sobra pouco tempo para serem o que são: apenas
crianças. Mesmo assim sobra alegria, felicidade. Tem muitos amigos com
quem compartilham segredos, travessuras, comemorações de gols. Nada lhes
passa desapercebido, tudo é motivo de riso, gozação. Sabem tirar da vida
o que a vida tem de melhor para oferecer. Quem dera que pudéssemos ter
um coração tão sábio e nobre assim.
O dia já amanhece quente. Saio com José, meu cunhado, para
escolhermos alguns lugares onde poderemos fazer esta distribuição de
presentes. No local sugerido, uma escola municipal do bairro Nova
Esperança, periferia de Sorocaba, as férias já começaram e estava
fechada. A cabeça começa a girar. Como pude deixar um evento tão
importante para última hora?
Percorremos outros lugares, recebendo outras negações. Voltamos
àquela escola. Percebo então que ao lado dela havia um pequeno Posto de
saúde onde estava acontecendo uma animada festa para crianças. Por que
não ali? Converso rapidamente com Dr. Cláudio, responsável pelo Posto,
que topa a idéia na hora.
Pessoas boas existem em locais que menos esperamos. Os médicos e
enfermeiras daquele posto fizeram uma vaquinha para comprar doces,
salgadinhos e até uma cama pula-pula para que as crianças do bairro
possam se divertir um pouco. Tudo regado a bexigas, muitas bexigas. A
alegria estampada nos pequenos rostos era contagiante.
A notícia da distribuição dos presentes que faríamos no dia
seguinte já estava sendo espalhada antes mesmo de sairmos de lá. O local
estava garantido. Agora entendo o motivo de tantos imprevistos para
visitarmos os locais nos dias anteriores. Que alívio!
Véspera de Natal. O dia amanhece languidamente. As horas para
levantar da cama não passam. A expectativa aumentando. Aos poucos,
amigos chegam para tomarmos junto o café da manhã em casa. Então Marcos,
que há décadas se fantasia de Papai Noel, chega. Não o conhecia
anteriormente, mas gostei dele no instante que o vi. Alto, forte e
risonho como todo Papai Noel deveria ser.
Após uma oração agradecendo mais esta oportunidade e pedindo por
auxílio na entrega, saímos em carreata. Neste ano tive a honra de levar
o Papai Noel, já que ninguém mais conhecia o local da distribuição. Para
combinar, carro vermelho e eu tendo mesmo nome da rena de nariz vermelho
que guia o trenó do Papai Noel de verdade.
Antes mesmo de chegarmos ao Posto, presentes eram distribuídos às
crianças que encontrávamos nas ruas. Num destes encontros, paramos por
um tempo maior, já que irmãos eram chamados, amigos vizinhos arrancados
sonolentos da cama. Notei que Papai Noel pegou um dos presentes mais
bonitos e saiu apressado. Atrás de uma grade alta estava um menino.
Não era feio nem bonito, nem rico nem pobre. Não tinha nada de
especial para que Papai Noel saísse tão apressado assim. Ele estende sua
mão por cima do muro, entregando seu presente. Então percebo o quanto
meu coração é cego. Aquela criança não enxergava. Pelo menos não com os
olhos.
O enorme e generoso coração do Papai Noel o viu e não pensou duas
vezes. Conversaram muito, de coração para coração. Ficaram abraçados.
Todos nós ficamos estáticos, respiração suspensa, lágrimas teimando em
cair. Naquele instante uma porta deve ter se aberto no céu, iluminando
tantos aprendizes que pensam que sabem alguma coisa.
Um único gesto nos mostrou como é simples ser feliz. A criança
sorria pela visita e nós pela lição tão inesperada. “Não podia deixar de
ir lá”, foi a resposta singela que Papai Noel deu. Mesmo que eu quisesse
não conseguiria falar nada. A emoção estava estampada na garganta.
Apenas liguei o carro e parti, puxando a carreata que deveria estar
sentindo a mesma emoção.
Chegamos ao Posto fazendo o buzinaço de sempre. Diversas filas se
formavam quase paralelas, se encontrando no portão de entrada. Enquanto
aguardávamos Fábio providenciar o material que faltava, Dr. Cláudio e eu
tentamos abrir um portão lateral que seria usado como saída das crianças,
mas que estava cimentado. Surgiu uma marreta e uma talhadeira. Não
pensamos duas vezes.
Gozado como é o ser humano. Queremos ser grandes, importantes,
famosos. Mas, ao longo dos anos, percebi que a felicidade surge de
gestos pequenos, simples, que quase passam desapercebidos. Quando aquele
portão finalmente abriu, o sorriso saiu farto, felicidade estampada nos
nossos rostos. E continuamos não prestando atenção no trabalho de tantos
que fazem da marreta seu ganha pão. Como é fácil ser feliz, e como é
fácil não valorizar esta felicidade.
Crianças entravam, ganhavam um abraço e presentes, saíam sorrindo.
Mães com crianças no colo, irmãos cuidando de outros menores. Pequeninos
atordoados, quando estavam quase saindo, voltavam-se. Olhares perdidos
transformavam-se em sorrisos lindos. Acordavam do transe, corriam para o
Papai Noel. “É só UM presente!”, teimávamos em repetir.
Quanta ignorância do enorme saber do coração daquelas crianças.
Apenas queriam um abraço, um olhar, um gesto daquele herói infantil.
Nada valia mais naquele instante. O Natal acontece num único dia do ano,
aquele anjo só estaria ali hoje. Acordavam do transe para poder sonhar.
Crianças, quantas crianças. A fila, ao invés de diminuir,
aumentava. Minutos, horas, dias. Que bom seria que pudéssemos resolver
os problemas do mundo distribuindo presentes para crianças. Um gesto
pequeno, um olhar cúmplice. Simples assim. Um dia seremos grandes se
tivermos a simplicidade e o coração de uma criança.
A fila teimosa finalmente cede. As últimas crianças recebem seus
presentes. Vemos crianças até onde a vista alcança, brincando, se
divertindo. Hoje é o dia delas, que aproveitem. Amanhã a dura realidade
retornará. Brinquem de gente, se divirtam bastante. Um dia, quando forem
gente de verdade saberão que o importante é ser criança, eternamente.
Saber tirar magistralmente de pedaços de pedra, papel ou qualquer
outro material, um mundo de faz de conta. Surgem animais, casas, carros,
pessoas, assim como palácios, dragões, princesas em perigo. Nada é
impossível para aqueles que crêem. Nada é impossível para as crianças,
mesmo para aquelas que dormem no interior dos que já cresceram por fora.
Como ainda temos tanto por aprender.
No dia seguinte, dia de Natal, tive a honra de me transformar em
ajudante de Papai Noel. Há quase duas décadas ele visita o hospital
regional de Sorocaba. Após o encontro com as primeiras crianças,
percebemos que o silêncio havia sido quebrado.
Ouvimos um murmurinho de pequenas vozinhas vindo dos quartos. Olhares
furtivos nas portas, mães que vinham confirmar que o próprio Papai Noel
realmente estava ali. Bolas, bonecas, carrinhos entravam e olhares
brilhantes, sorriso e alegria contagiante vinham em resposta.

Encontramos um menino sapeca que tinha quebrado a perna.
Discutimos muito sobre seu presente, já que ele era corintiano roxo e
dissemos que só tínhamos bola com o símbolo do Palmeiras. Estava difícil
saber quem estava mais alegre. Ele estava tendo alta naquele dia, iria
passar o Natal em casa.
No quarto seguinte, o lado oposto daquela alegria. Na noite
anterior, véspera de Natal, houve um acidente de carro. Uma menina bem
machucada e a mãe em coma. E agora? Após tanta alegria com o jogador
mirim, como transmitir esperança e cumplicidade a tanta dor? Não
sabíamos nem se entregávamos os presentes diante da situação. Conversei
bastante com o pai atônito. Nos abraçamos, cúmplices da mesma dor, a
ausência de uma pessoa querida num dia que deveria ser de alegria.
Saí dali com vontade de abraçar a todos indistintamente.
Pacientes, visitas, enfermeiros, médicos. Não sabia por que, apenas
abraçava. Talvez tentasse transmitir solidariedade, esperança, gratidão.
Saímos do hospital com a alma lavada. Leves, alegres, riso solto.
Fomos direto a um assentamento de carrinheiros na rodovia que liga
Sorocaba a Votorantim. Ali moram algumas crianças conhecidas nossas,
pois é um dos lugares que entregamos refeições semanalmente.
Infelizmente não as encontramos, mas deixamos brinquedos a todas elas.
Após Marcos ficar na sua casa, reparei que ainda havia muitos
brinquedos no carro. Saí visitando outros assentamentos, procurando
crianças nas ruas e semáforos, carrinheiros pais de família. Encontrei
sempre a mesma cumplicidade: irmãos correndo rápido para trazer amigos,
outros irmãos. Mães pedindo para filhos que estavam em outro lugar.
Retornei para casa depois de muito tempo, reparando que o dia estava
mais lindo que o normal.
Diariamente uma abelha voa centenas de metros a procura de flores.
A longa jornada da colméia às flores é repetida diversas vezes num único
dia. Outras abelhas fazem tarefas mais “braçais” dentro da colméia.
Limpam, arejam, alimentam seus pares, cuidam das crias. Um trabalho
gigantesco, se levarmos em conta uma única operária. Mas cada uma delas
executa uma pequena parte desta tarefa, tornando-a bastante simples para
ser executada. Também poderíamos ser assim.
Existem muitas pessoas que precisam de ajuda. Muitas delas nem
podem se dar ao luxo de parar de trabalhar por estarem doentes ou
machucadas. Outras, que encontramos no nosso dia a dia corrido, tem
problemas bastante sérios, mas que não tem ninguém para desabafar ou
trocar idéias. E existem muito mais pessoas, assim como eu ou você, que
poderiam fazer algo para minimizar seus sofrimentos.
Pequenos gestos, sorrisos. Ouvir com o coração e tentar ajudá-los
a resolverem seus problemas, pequenos ou não. Um trabalho gigantesco, se
levarmos em conta uma única pessoa. Mas cada uma delas pode executar uma
pequena parte desta tarefa, tornando-a bastante simples para ser
executada. O resultado desta união toda? Mel da melhor qualidade.
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