|
Acordei com essa afirmação certa manhã. Sou Nada.
Não estava me
sentindo com baixa auto-estima, nem muito menos com alta. Apenas uma
constatação. Sou Nada.
Não era 'eu sou
um nada'. Isso equivaleria a 'estou me sentindo pior do que o cocô do
cavalo do bandido'. Neste caso o artigo indefinido faz toda a
diferença. Um nada qualquer é uma das piores coisas do mundo. Uma
dentre as inúmeras nulidades e insignificâncias que existem por aí e
são totalmente
desconhecidas, pior, não merecem ser conhecidas. Um nada qualquer.
Também não me
sinto como sendo o nada. O problema aí está na especificação dada
pelo artigo definido. Ser o nada é ser algo e é aí que reside o
engano.
Quando se é
Nada, também não se é. Isso é difícil de ser entendido, aliás,
impossível. Somente vivenciado. E reconhecido por aqueles que já
passaram
por isso. Se é que por isso se passa. Acho que isso se vive. Ou pelo
menos se toma consciência. Mas percebam que não é um algo de que se
toma consciência. A ênfase não está no objeto e sim no verbo. É um
estado de ser
vazio. Talvez vacuidade seja sinônimo para Nada. Eu sou uma vacuidade.
Esta frase não é perfeita porque nos remete ao objeto, mas, ainda
assim, se aproxima do estado de ser Nada.
Ser Nada me
remete à Clarice Lispector. Isso me espanta. Deveria estar me lembrando
do Dalai lama, ou do Buddha, ou qualquer outro sábio, mas é a imagem
da escritora que me toma. Talvez ela tenha vivenciado esse estado e
tentado expressá-lo como estou tentando agora.
Aliás, isso é
inútil. Ser Nada ultrapassa toda compreensão - como diria Clarice.
Podemos no máximo exclamar: ah! Ou então 'é isso'! Uma identificação
entre almas que vivenciam coisas semelhantes. Se bem que 'é
isso' é muito esfuziante, muito extrovertido. A alegria vem do
compartilhar, do contato íntimo e silencioso entre as almas.
Ser Nada localiza-se
exatamente no limiar entre a introversão e a extroversão. Não posso
dizer que sou nem não sou. Assim como também não posso afirmar que
sou feliz nem triste. Sou Nada.
Ser homem eu
posso afirmar pela questão física - e de caráter também. No entanto,
se consideramos que homem e mulher são um estado de espírito, ou
melhor, um estado de consciência, não sou nem um nem outro. E também
não sou andrógino ou hermafrodita. Sou Nada.
Seria o ser Nada
um estado límbico e indizível? Um matiz perdido - e impossível de ser
localizado - entre o branco e o preto. Sou nada.
Isso é válido
para tudo que é polar. E tudo é polar. Exceto o Nada.
Engana-se quem
pensa que o oposto do Nada é o Tudo. Não é. Tudo e Nada são a mesma
coisa. Exatamente a mesma coisa. O grande vazio é o grande
preenchimento, a grande totalidade. Sou nada.
Ser Nada pode
levar ao suicídio pela enorme angústia que dá ser Nada. No entanto,
se trocarmos os óculos e o encararmos como sendo Tudo, talvez fique
mais agradável, mais digerível, mais palatável sua digestão. É a
mesma coisa, mas podemos ficar relaxados. Tudo é questão de ponto de
vista.
Para mim veio o
sou Nada. Devo aceitá-lo humildemente. Sou nada.
Intelectualmente
falando, ser Nada só é ultrapassado pelo ser. Eu Sou.
So'ham. Em
realidade, todo mundo é. Falta só tomar consciência disso. Se bem
que esse só, esse estalo, esse click, faz toda a diferença. Eu Sou.
Por ora, sou
Nada. E estou resignado e em paz. com isso.
|