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"Sou Nada"

por    Alexandre Perlingeiro

                    
                     

          Acordei com essa afirmação certa manhã. Sou Nada.
          Não estava me sentindo com baixa auto-estima, nem muito menos com alta. Apenas uma constatação. Sou Nada.
          Não era 'eu sou um nada'. Isso equivaleria a 'estou me sentindo pior do que o cocô do cavalo do bandido'. Neste caso o artigo indefinido faz toda a
diferença. Um nada qualquer é uma das piores coisas do mundo. Uma dentre as inúmeras nulidades e insignificâncias que existem por aí e são totalmente
desconhecidas, pior, não merecem ser conhecidas. Um nada qualquer.

          Também não me sinto como sendo o nada. O problema aí está na especificação dada pelo artigo definido. Ser o nada é ser algo e é aí que reside o engano.
          Quando se é Nada, também não se é. Isso é difícil de ser entendido, aliás, impossível. Somente vivenciado. E reconhecido por aqueles que já passaram
por isso. Se é que por isso se passa. Acho que isso se vive. Ou pelo menos se toma consciência. Mas percebam que não é um algo de que se toma consciência. A ênfase não está no objeto e sim no verbo. É um estado de ser
vazio. Talvez vacuidade seja sinônimo para Nada. Eu sou uma vacuidade. Esta frase não é perfeita porque nos remete ao objeto, mas, ainda assim, se aproxima do estado de ser Nada.

          Ser Nada me remete à Clarice Lispector. Isso me espanta. Deveria estar me lembrando do Dalai lama, ou do Buddha, ou qualquer outro sábio, mas é a imagem da escritora que me toma. Talvez ela tenha vivenciado esse estado e tentado expressá-lo como estou tentando agora.
          Aliás, isso é inútil. Ser Nada ultrapassa toda compreensão - como diria Clarice. Podemos no máximo exclamar: ah! Ou então 'é isso'! Uma identificação entre almas que vivenciam coisas semelhantes. Se bem que 'é
isso' é muito esfuziante, muito extrovertido. A alegria vem do compartilhar, do contato íntimo e silencioso entre as almas.

          Ser Nada localiza-se exatamente no limiar entre a introversão e a extroversão. Não posso dizer que sou nem não sou. Assim como também não posso afirmar que sou feliz nem triste. Sou Nada.
          Ser homem eu posso afirmar pela questão física - e de caráter também. No entanto, se consideramos que homem e mulher são um estado de espírito, ou melhor, um estado de consciência, não sou nem um nem outro. E também não sou andrógino ou hermafrodita. Sou Nada.
          Seria o ser Nada um estado límbico e indizível? Um matiz perdido - e impossível de ser localizado - entre o branco e o preto. Sou nada.
          Isso é válido para tudo que é polar. E tudo é polar. Exceto o Nada.
          Engana-se quem pensa que o oposto do Nada é o Tudo. Não é. Tudo e Nada são a mesma coisa. Exatamente a mesma coisa. O grande vazio é o grande
preenchimento, a grande totalidade. Sou nada.

          Ser Nada pode levar ao suicídio pela enorme angústia que dá ser Nada. No entanto, se trocarmos os óculos e o encararmos como sendo Tudo, talvez fique
mais agradável, mais digerível, mais palatável sua digestão. É a mesma coisa, mas podemos ficar relaxados. Tudo é questão de ponto de vista.

          Para mim veio o sou Nada. Devo aceitá-lo humildemente. Sou nada.
          Intelectualmente falando, ser Nada só é ultrapassado pelo ser. Eu Sou.
          So'ham. Em realidade, todo mundo é. Falta só tomar consciência disso. Se bem
que esse só, esse estalo, esse click, faz toda a diferença. Eu Sou.

          Por ora, sou Nada. E estou resignado e em paz. com isso.


 

         

Alexandre Perlingeiro - Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga.
Formado pela Associação Brasileira de Professores de Yoga, com especialização em Dakshina Tantra com Paulo Murilo Rosas.
Formação em Recuperação Motora e Terapia pela Dança-Escola Angel Viana. Massoterapeuta e Shiatsuterapeuta. Arteterapeuta e Arte-Educador (Tear-RJ). Terapeuta Reikiano nível I e II.

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Fale com Alexandre:
alexandre.perlingeiro@tantrayoga.pro.br

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