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"Neo e o Sr. Smith"

por    Alexandre Perlingeiro

                    
                     

          Nestes tempos de Star Wars, gostaria de voltar a Matrix.
          No primeiro filme da trilogia, aliás, o único dos três merecedor de algum comentário, ao final, quando Neo está prestes a ser morto pelo Sr. Smith, de repente, algo acontece que ele se transforma. Não sabemos exatamente o que foi que houve, mas, com toda certeza, algo ocorreu. Tornou-se seguro de si, adquiriu novos poderes. Talvez tenha sido a iminência da morte, o desespero supremo, não importa. A partir desse instante ele se desvia dos projéteis com rapidez. Mais ainda, ele para as balas no ar com um simples aceno da mão. E o pobre do Sr. Smith, enfurecido, parte para cima dele, quando Neo mergulha nele e o perfura, penetrando em seu interior, desvendando a realidade ilusória da Matrix. Aí a profecia se confirma. O oráculo estava certo. Ele é o escolhido, o eleito, o esperado. Todos ficamos extasiados com esta cena. Queremos também nós atingir a liberação, transcender o mundo fenomênico, ver para além das formas. Neo nos confirma que esse caminho é possível. Tudo o mais que se segue é pancadaria inútil e alienante com belíssimos efeitos especiais.

          Gostaria de me aprofundar no significado simbólico exatamente dessa cena, quando Neo consegue ver a realidade virtual da Matrix. O que significa penetrar no outro?
          Tendemos a fantasiar que isso seja possível somente a semi-deuses ou aos santos, ou, pelo menos, que transformações profundas necessitem ser implementadas previamente para que um mero humano mortal seja capaz de tal façanha. Nós não somos capazes disto. Neo e os santos são capazes disso. Eu não.

          Gostaria de oferecer uma outra opção. Todos nós, cada um de nós, é capaz de entrar no outro. E isso não se dá fisicamente, mas por meio do coração. Nosso coração nos permite olhar o que está escondido, o que está por detrás dos panos. Nos permite amar e pelo amor unimos o que estava (ilusoriamente) separado. Pela compaixão as barreiras caem e as aparências são desfeitas. Pela compaixão nos tornamos deuses e santos.
          E a compaixão também transforma o outro.
          O Sr. Smith se torna um programa rebelde. Neo o transformou. Ele percebeu que existe algo de grandioso que seus softwares não dão conta de entender, mas vivenciou que existe. Neo lhe mostrou, por uma fração de segundos, sua natureza divina.
          Ele teria duas opções, se juntar a Neo ou destruí-lo. As duas são maneiras de se tentar obter algo. Ele opta pela segunda. Não sei se podemos dizer que foi a inveja que passou a motivá-lo a partir de então. Talvez o desejo de liberdade, a busca pela transcendência, a ânsia pela liberação.

          Nós, voyeristas, ficamos observando tudo de fora, acomodados em uma poltrona, alienados da busca. O Sr. Smith não. Ele decide fazer. Ainda que seja um fazer reativo, é também movido pelas mesmas motivações de Neo. Só se atira pedra em árvore cheia de frutos. Se Neo conseguiu, o Sr. Smith há de conseguir também.
          Bem, voltando a nós, buscadores cinéfilos, o que Neo fez muita gente faz. Psicólogos exercitam isso rotineiramente em suas clínicas. Mais ainda, espera-se deles que façam isso. E, se não forem capazes de fazê-lo, serão profissionais medíocres em sua clínica. Os psicólogos são (ou pelo menos esperamos que sejam) capazes de perceber o outro em sua dor e em seus desejos.

          Uma mãe também conhece o seu filho. Estão ligados por um cordão umbilical eterno. O peito sabe quando a cria está com fome. O coração sabe quando a prole sofre. Ela é capaz de diferenciar o choro dolorido daquele manhoso e chantagista. Nada os separa. Para a mãe isso é um dom da natureza, veio com a espécie.
          Cartomantes, videntes e todos os oráculos também são capazes de transcender espaço e tempo. Fazem-no sem consciência egóica, por pura habilidade inata. Se também com eles esse é um dom, com os psicoterapeutas isso é aprendido e exercitado.
          É uma vivência dos chakras superiores. A compaixão no Anahata e a Unidade no Vishuddha e no Ajña.

          Para o Tantra, todos nós podemos aprender a transcender o mundo das formas. A metodologia está disponível. Basta que tenhamos o desejo e a persistência para utilizá-la. Isso é sádhana, o caminho a ser percorrido.
          Dizem que os Tantras (não literalmente) que todos nós poderemos chegar a ser como Neo. E não precisa fazer como o Sr. Smith. Não depende do outro, só de si próprio.
          Swami Muktananda, quando perguntado sobre o que achava da competição na sádhana, respondeu que ela é uma corrida de um só participante. Quem ganhará? Quem perderá? Mais ainda, quem premiará e quem será premiado? E quem ficará torcendo?
          O segredo de Neo está ao nosso alcance.
          Quem se habilita?

 

Alexandre Perlingeiro - Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga.
Formado pela Associação Brasileira de Professores de Yoga, com especialização em Dakshina Tantra com Paulo Murilo Rosas.
Formação em Recuperação Motora e Terapia pela Dança-Escola Angel Viana. Massoterapeuta e Shiatsuterapeuta. Arteterapeuta e Arte-Educador (Tear-RJ). Terapeuta Reikiano nível I e II.

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Fale com Alexandre:
alexandre.perlingeiro@tantrayoga.pro.br

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