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"A (verdadeira) Banda de Moebius"

por    Alexandre Perlingeiro

                    
                     

          Imaginem um cinto de duas cores, preto de um lado e branco do outro lado. Esses cintos foram criados para permitir a escolha da cor que se quer utilizar em uma determinada ocasião. Se o traje pede preto, coloca-se o lado negro do cinto para fora, visível, ficando a parte clara escondida. As pessoas que têm esse cinto fazem isso, não?
          Agora imaginem o seguinte: quando você for fechar o cinto, ao invés de fechá-lo como se faz normalmente, você decide torcer em 180 graus uma das extremidades. Depois dessa torção você fecha o cinto. As crianças, sem querer, fazem isso muitas vezes. Eu também já fiz isso algumas vezes, involuntariamente, é claro. Como a parte torcida do cinto fica nos incomodando, logo em seguida desfazemos a torção.
          No entanto, antes de desfazermos essa torção, observem a figura criada. Ela é bem especial. Se vocês olharem com atenção, perceberão que, se percorrermos o lado branco do cinto, vamos chegar no lado negro (e vice-versa) e continuando retornaremos ao ponto de partida, o que implica dizer que o cinto fechado dessa maneira só tem um lado (apesar das duas cores), o que não ocorre com o cinto fechado tradicionalmente, que possui dois lados, o de dentro e o de fora. Também em relação as suas bordas, se percorrermos uma borda do cinto, passaremos pelas 'duas bordas' ininterruptamente, sempre voltando ao ponto de partida, o que implica dizer que este cinto especial só tem uma borda, ao contrário do outro que possui duas bordas.
          Pois bem, esse cinto torcido é uma figura geométrica tridimensional que pode ser expressa através de uma fórmula matemática. A figura ficou conhecida como curva ou banda de Moebius, em homenagem ao matemático que criou a fórmula e estudou suas propriedades singulares.

          A banda de Moebius ficaria restrita ao círculo dos matemáticos se Lacan não a tivesse trazido para o mundo da Psicanálise, ganhando então destaque como modelo de representação de nossa psiquê. Conforme a banda nos mostra, não podemos fazer distinções polares (do tipo interior/exterior, sanidade/loucura, bem/mal, certo/errado, amor/ódio) simplesmente porque não há distinções. Lembrem-se que a banda é uma moeda de um lado só.
          Gostaria de refletir aqui sobre essa idéia, ampliando sua utilização e levando-a para o nosso cotidiano.
Antes de mais nada cabe ressaltar a semelhança da banda com o símbolo do Tao (Yin e Yang). Nele o preto origina-se do branco e o contém como semente (e vice-versa). É a mesma coisa da banda, com a diferença que os taoístas utilizam esse símbolo para representar toda a criação. O mundo é assim. O mundo é essa interação continuada entre Yin e Yang. O mundo é o Tao.
Penso que a banda de Moebius seja a representação ocidental do Tao aplicada à Psicanálise.
          Voltando então ao cotidiano, todas as relações de pares de opostos devem ser encaradas não como duas coisas distintas e antagônicas e sim como uma inteireza, uma unidade indissociável. Se você odeia seu inimigo, preste atenção, você também o ama. O contrário também é verdadeiro. Em um casamento de longa data, em algum momento, com certeza, vamos descobrir que odiamos profundamente aquela pessoa que tanto amamos. Geralmente é nessa hora que os casamentos terminam, pois somos incapazes de suportar a tensão gerada por essa tomada de consciência. É a visão da Unidade difundida pelos tântricos. Resistimos em aceitar que o cinto seja preto e branco simultaneamente e do mesmo lado.

          É claro que nem todos são capazes de vivenciar essa visão unicista do mundo. Aqueles que têm predomínio dos chakras básicos não aceitarão de maneira nenhuma este fato. Ou você está comigo ou contra mim. Se você não é meu amigo, então é meu inimigo.
          É preciso energizar os chakras superiores para que possamos compreender a interconexão de tudo na vida.
Uma conseqüência dessa visão é a ausência de julgamento. Como posso julgar alguém se eu e ele estamos certos e errados ao mesmo tempo? Isso não quer dizer que uma pessoa não deva pagar por seus crimes. Um juiz deve (esse é o seu dharma) condenar um criminoso comprovadamente culpado. Toda ação gera uma reação. É a lei do karma. O juiz deve agir sem julgamento. Ele não é melhor nem pior do que o bandido que está condenando. Somos todos feitos da mesma matéria, felicidade. Somos todos a mesma banda.

          Por fim, gostaria de relembrar um ditado taoísta: o Tao que pode ser dito, não é o verdadeiro Tao. Tudo isso que foi dito, pensado, conceituado, precisa ser deixado de lado para que, somente então, surja a verdadeira banda.
 

 

Alexandre Perlingeiro - Vice-presidente da Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga.
Formado pela Associação Brasileira de Professores de Yoga, com especialização em Dakshina Tantra com Paulo Murilo Rosas.
Formação em Recuperação Motora e Terapia pela Dança-Escola Angel Viana. Massoterapeuta e Shiatsuterapeuta. Arteterapeuta e Arte-Educador (Tear-RJ). Terapeuta Reikiano nível I e II.

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Fale com Alexandre:
alexandre.perlingeiro@tantrayoga.pro.br

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