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Dormi mal.
Acordei com os olhos ardendo. Arranhados pela secura e pela sujeira
do ar. Olho, da janela, a cidade, sonolenta ainda, acordando aos poucos.
Embaçada. Horizontes imprecisos, de cor indefinida. Serão meus olhos,
gastos pelo tempo e cansados pela vida, que as lentes dos óculos não
conseguem corrigir? Ou fumaças vagueando insidiosas nas brumas da manhã?
Lembranças brotam desconexas, miasmas em cantos indefinidos da
mente, e invadem meus pensamentos. Distantes no tempo, as aulas da D.ª
Cecília, em manhãs sonolentas como esta, ecoam no silêncio da sala de
aulas do Grupo Escolar Aphonso Pena (ou no escuro de minha memória?): “O
céu é azul marinho”. E era. A gente via, comprovava.
“Lembranças, quantas lembranças / dos tempos que lá se vão
”. Lembrança puxa lembrança e sopra versos nostálgicos no poema de
infância: “... vai para o céu a fumaça / fica na terra o carvão”. A
fumaça está no céu, e o céu deixou de ser anil. A memória infantil realça
os detalhes. O azul marinho seria apenas uma aquarela a reforçar a memória
de criança? Acho que não.
Para os jovens de hoje eu garanto: “meninos, eu vi!”. Vi de
fato um céu anil; azul profundo, lindo e comovente. Manhãs como esta, dias
claros e limpos, ficávamos em algum ponto alto olhando o perfil da Serra
da Mantiqueira, compondo e recompondo as linhas mágicas, divisas de uma
Shangrilá de maravilhas incalculáveis, olhos postos longe no horizonte que
sonhávamos ganhar e ultrapassar. Hoje, os horizontes estão próximos e
indistintos. Não se prestam a embalar sonhos das crianças aventureiras.
“...Criança! /Não verás nenhum país como este! / Olha que céu!
Que mar! Que rios! Que floresta! / A natureza, aqui, perpetuamente em
festa...”. Em sã consciência eu poderia atiçar a imaginação das
crianças de hoje: olha que céu, que mar?! Vã ilusão. Que céu sujo! que mar
poluído! Difícil me vestir do patriotismo do poeta. Afinal, que país é
esse que ostenta o nefasto título de quarto maior emissor mundial de gases
prejudiciais ao ar? E ao azul do céu? Que país é esse onde as queimadas
destroem as matas, matam a vida e vedam a vista de céus e horizontes? De
esperanças e de sonhos?
“Santa Clara, clareai”, mais um eco no meio de tantos outros.
Clareai o anil de nossos céus, mas também e principalmente a mente e a
alma de nosso povo. Com sabedoria, diz o popular que pior cego é aquele
que não quer enxergar. Horizontes opacos são ideais para quem não quer
enxergar. Um homem sábio e justo já disse: “quem tem olhos, veja; quem
tem ouvidos, ouça”. Eu me pergunto: quem quer enxergar? Há alguém
disposto a ver?
O carro passa acelerado na rua, dispersando meus devaneios no ruído
do motor desregulado e barulhento. Solta fumaça escura e fedorenta. Lá
dentro, o rádio ligado executa tão alto quanto o motor, ou mais alto ainda,
uma seqüência de batidas fortes (que alguém me disse se chamar funk):
“tem-que-tê, tem-que-tê, tem-que-tê uma amante!”.
E essa lágrima, teimosa, que insiste em correr?
É a secura do ar?
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