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| Crônica
de uma Morte Anunciada |
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A ÁGUA QUE MATA A SEDE E O SER QUE MATA A ÁGUA A evidência da "morte" de nossas águas salta à vista: a má qualidade hídrica é responsável por cerca de até 70% das doenças diagnosticadas e internações hospitalares. Mais da metade da água doce aproveitável do mundo está comprometida por poluição e contaminação. De todos os grandes rios do planeta, apenas dois estão despoluídos: o Amazonas, na América do Sul, e o Congo, na África. A imundície carregada pelos cursos de água já transformou imensas áreas marinhas em verdadeiros desertos – cerca de 150 zonas mortas, uma delas no sudeste brasileiro – que estão evoluindo em ritmo veloz e voraz. Cada um com um índice de oxigênio dissolvido na água inferior ao necessário para manter a vida. A cada década a área morta dos oceanos dobra. Muitas espécies de peixes marinhos, grande fonte de alimentação, estão criticamente ameaçadas pela progressão das zonas mortas. Queimadas ressecam o ar, prejudicam a saúde da biodiversidade, destroem habitat e, dentre tantos outros prejuízos, envenenam a água, além de interferir prejudicialmente no ciclo das chuvas. Os inúmeros rolos de fumaça que evoluem na atmosfera das periferias e arredores mostram um cenário de pós-bombardeio. Um campo de batalha onde todos são vilões e vítimas. O quadro de desolação não tem um fim: esgotos nos cursos de água, lixo atirado a esmo, agrotóxicos esbanjados contaminando lençóis freáticos e aqüíferos; garimpos despejando mercúrio e assoreando os leitos aquosos; desmatamentos, impedindo a concentração de água na atmosfera e no solo... Uma interminável lista de armas letais que estão levando nossos escassos recursos hídricos – menos de 1% do total da água planetária – à morte. Enquanto isso, por outro lado, a demanda aumenta. Durante o século XX a população mundial triplicou (de 2 para 6 bilhões de habitantes), o consumo de água foi multiplicado por sete, as áreas irrigadas cresceram mais de 6 vezes, enquanto a degradação dos mananciais subtraiu um terço das reservas hídricas do planeta. Estão nítidas as advertências de morte da água potável. Ou acordamos a tempo de resgatar a vida da água que nos mata a sede, ou morreremos junto com ela, na maior e mais catastrófica extinção de espécies que já pudemos algum dia supor.
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| Francisco
A. Romanelli é
ecologista e educador. Presidente da Associação Ecológica Vertente e
Vice-Presidente da Associação de Proteção Ambiental de Varginha (MG)
e Região. |
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