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O Calor Nosso de Hoje em Dia
por Francisco A. Romanelli

                 

          Estudos publicados por cientistas da Universidade de Estocolmo, Suécia, dão conta de que não existe qualquer registro de uma década tão quente como a de 90. Mesmo o registro natural em vegetais, fósseis e rochas autoriza a afirmativa de que não houve década mais quente nos dois últimos milênios. O fascinante estudo, que considera dados obtidos pela análise dos núcleos dos sedimentos e dos anéis dos troncos de árvore, acompanhou a variação da temperatura nos últimos dois mil anos e confirmou o que as ciências ambientais vêm relatando: apesar de existir variações de temperatura por causas absolutamente naturais, a interferência humana está acelerando o processo de aquecimento global.

         As pressões naturais sobre o aquecimento vêm habitualmente de grandes erupções vulcânicas, responsáveis pelo depósito de quantidades enormes de gases carbonados, principalmente CO2 (dióxido de carbono), na atmosfera e de alterações dos ciclos de radiação solar. Mas a existência de uma vida tecnologicamente avançada, creditada ao ser humano, interage com os processos naturais provocando uma aceleração incontida no processo.

          Por um lado, no mundo civilizado de hoje é necessário aumentar as emissões de gases carbono pela queima artificial de combustíveis fósseis, principalmente para manter a continuidade e o crescimento do processo fabril e a grande frota de veículos automotores em funcionamento. Por outro, imperativo que se destruam áreas verdes, responsáveis pela absorção desses gases, para ampliação de culturas e pastagens e para sustentar o crescimento demográfico e a extração de riquezas.

          O crescente processo de “desertificação” dos mares e oceanos do globo, principalmente pela deposição de resíduos de esgotos domésticos e industriais, mata enormes áreas de fitoplânctons, alga unicelular que é responsável tanto por emissão significativa de oxigênio como pelo seqüestro de gases carbono.

          Estudos pessimistas afirmam que a temperatura do planeta subiu 1° C em média nos últimos cento e cinqüenta anos e subirá, ainda dentro deste século, cerca de mais 15° C. Os otimistas fixam esses limites em 0,5° C e 5° C. Mas em uma coisa todas as pesquisas convergem: o planeta está em franco processo de aquecimento. Cinco ou quinze graus representam catástrofes de grande amplitude – enormes áreas submersas ou alagadas, tempestades abundantes e destruidoras, redução de áreas para sobrevivência humana, maior concentração demográfica, processo de destruição mais acelerado... tudo isso contabilizando o corte de milhares de vidas – humanas ou não.

          No extinguir do século XX a humanidade participou de uma grande convenção sobre aquecimento global. Dela, surgiu um protocolo de ações que visa a redução gradual da emissão de gases causadores do chamado efeito estufa. São ações tímidas, frente a uma situação de tremendo potencial agressivo. Com a queda da cortina de ferro e do muro de Berlim, o capitalismo desenfreado ampliou a cultura do consumo e da extração ilimitada de riquezas. Fala-se muito em crescimento sustentável e consumo sustentável. Mas nenhum processo se sustentará, em um quadro de mudanças climáticas tão rápidas como as que se tem vivenciado e que ainda serão vividas, enquanto faltar o principal ingrediente dessa fórmula: o bom senso do governo dos países economicamente mais poderosos.

 

Francisco A. Romanelli é ecologista e educador. Presidente da Associação Ecológica Vertente e Vice-Presidente da Associação de Proteção Ambiental de Varginha (MG) e Região.
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romanelli@netvga.com.br

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